Inégalités

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Continuo a considerar o Le Monde um dos melhores jornais, e afirmo-o aqui mesmo com o risco de parecer provocatório (ou ingénuo) perante aqueles que acham que a imprensa anglo-saxónica é a bíblia, logo a única onde se pode encontrar a verdade. Avançando, agradeço ao vespertino (até isto soa bizarro hoje) parisiense a sua primeira página datada de 15 de dezembro. Uma infografia simples mostrava como a Europa é única, deve ser acarinhada e protegida, talvez com a fórmula da União Europeia a ser a que mais assegura a sua especificidade.

A propósito de um relatório sobre desigualdades (WID.world, de economistas como Thomas Piketty), o diário francês expunha aos seus leitores de forma simples (não que eles precisem, pois muitos pertencem à intelectualidade francófona) como o mundo dá cada vez mais aos ricos mesmo dando alguma coisa aos pobres. Traduzindo, desde 1980 os 1% mais ricos captaram 27% do crescimento do rendimento enquanto a metade mais pobre apenas 12%.

Voltando à tal infografia, que mostrava a porção do rendimento nas mãos dos 10% mais ricos, a Europa surgia com 37%, depois a China (42%), a Rússia (46%), os Estados Unidos e o Canadá (47%), a África (54%), o Brasil (55%), a Índia (55%) e por fim o Médio Oriente (62%). Ou seja, mesmo também afetados pelo aumento das desigualdades, os países europeus acabam por atenuar as diferenças através da fiscalidade progressiva e da oferta de serviços sociais. Chama-se a isto o modelo social europeu e, apesar de às vezes parecer jargão de políticos ou eurocratas, é uma das grandes conquistas da humanidade.

Na Europa há diferenças nas desigualdades, as inégalités que os franceses combatem desde 1789. Dois países do antigo bloco comunista, a República Checa e a Eslováquia, mantêm-se nas sucessivas listagens como um exemplo positivo na relação entre ricos e pobres, apesar de o primeiro deles ter agora um primeiro-ministro magnata. Também a França se comporta bem (atrás dos antigos checoslovacos e dos nórdicos, mas melhor do que britânicos ou Portugal, segundo o índice Gini). E em vez de andarmos também sempre a dizer que o país está em decadência, deveríamos olhar com admiração para aquilo que ainda consegue. Se calhar não é um acaso ter um Le Monde.

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