Imprensa brasileira ufana com vitória de 'Tropa de Elite'

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Brasil volta a falar sobre o filme que não quis levar aos Óscares

Dez anos depois de Central do Brasil, de Walter Salles, ter ganho o primeiro Urso de Ouro do Festival de Berlim, outro filme brasileiro, Tropa de Elite, repetiu o feito, devidamente repercutido na imprensa do país além--Atlântico.

O influente crítico Luís Zanin, do Estado de São Paulo, também editor do suplemento de Cultura deste diário, escreve: "Essa para mim é a maior bomba do final de semana: Urso de Ouro em Berlim para Tropa de Elite, depois do filme de José Padiha ser recebido com muita reserva pela crítica europeia e americana. Acho que ninguém acreditava nas chances do filme". E destaca que este, tal como Cidade de Deus antes dele, e "apesar de mergulhar no mesmo ambiente" de um ponto de vista oposto, é "eficaz", "seduziu o público jovem" e tem "frases e atitudes que entraram para o quotidiano das pessoas". Zanin recorda que "Costa-Gavras [presidente do júri do Festival de Berlim], autor de filmes políticos como Z e Missing, sempre esteve atento ao factor comunicação com o público".

Ainda no Estado, outro crítico, Luiz Carlos Merten, enviado do jornal ao festival, diz que a vitória de Tropa de Elite foi "um desagravo à crítica que recebeu da revista Variety", que em termos invulgarmente violentos, se referiu a Tropa de Elite como sendo um filme "de ultradireita", "fascista" e "recrutador de Rambos", entre outras considerações deste género. Segundo Merten, este Urso de Ouro é também uma vitória do distribuidor americano e internacional do filme, o conhecido Harvey Weinstein, ex-Miramax, pois " foi ele quem pressionou a organização a colocar o filme de Padilha em concurso, quando Tropa já havia sido seleccionado para a secção Panorama.

A questão agora é saber se Weinstein, com o aval deste prémio tão importante em Berlim, "conseguirá emplacar Tropa de Elite no Óscar do ano que vem, como fez com Cidade de Deus, apadrinhando a carreira internacional de Fernando Meirelles".

Já na Folha de São Paulo, Leonardo Cruz considera que a vitória de Tropa de Elite contraria todos aqueles que disseram que o filme "não teria chances de premiação em um festival de júri presidido pelo cineasta grego Costa-Gavras (...) Por essa tese, um realizador 'de esquerda', muito politizado, não aprovaria um filme 'de direita', 'reaccionário';, como disseram alguns. Bem, ao tudo indica, Costa-Gavras não achou o filme nada reaccionário".

O Globo, por seu lado, frisa igualmente que o júri da Berlinale "ignorou as opiniões negativas a respeito de Tropa" e realça as declarações de José Padilha, para o qual este prémio "é uma vitória para o cinema brasileiro e uma vitória da luta que é fazer cinema no Brasil".

Um dos argumentistas de Tropa de Elite, Rodrigo Pimentel, falando a O Globo, não confirmou que vá haver um Tropa de Elite 2, existindo apenas planos para uma série na TV Globo, tal como sucedeu com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Katia Lund. Tropa de Elite já foi adquirido pela Lusomundo para exibição em Portugal, tal como o DN noticiou ontem. Recorde-se ainda que Tropa de Elite não foi escolhido pelo júri do Ministério da Cultura brasileiro como representante do Brasil à candidatura à nomeação ao Óscar do Melhor Filme Estrangeiro de 2008. O filme seleccionado foi O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger. Que, ironicamente, havia competido no Festival de Berlim de 2007, sem ter ganho qualquer prémio.

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