A execução de um prisioneiro ferido, nas ruínas de uma mesquita em Fallujah, arrisca-se a ser um poderoso embaraço para os Estados Unidos e talvez um dos momentos marcantes desta violenta aventura iraquiana. A acção foi da responsabilidade de um marine, que estava assustado e submetido a enorme stress e fadiga. Provavelmente, o soldado será castigado, como estão a ser os militares de baixa patente envolvidos no escândalo da prisão de Abu Ghraib. Mas o problema pode ser mais fundo do que determinar se houve ou não autodefesa..«Vergonha, Eterna vergonha», gritam os prisioneiros franceses que vão ser massacrados pelos camponeses do exército inglês de Henrique V, na peça de Shakespeare com o mesmo nome. O que podia ser um heróico feito de armas, a vitória de Agincourt, é manchado com o sangue daquelas vítimas. As palavras de condenação têm a força de séculos..Em Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer (talvez o grande romance sobre a Segunda Guerra Mundial), um dos momentos mais dramáticos ocorre quando os soldados americanos capturam um japonês ferido. A cena é contada com detalhes brutais: os sorrisos do japonês quando acredita que a sua vida será poupada, a descrição pormenorizada de cada centímetro da sua pele, quase dos seus pensamentos e, de repente, um tiro na cabeça, a execução sumária, inútil. Servem aquelas páginas para caracterizar o cruel exercício de poder do sargento, numa metáfora sobre o que isso significa de autodestruição. Na guerra seguinte, em 1968, será uma fotografia: o coronel Loan, da polícia sul-vietnamita, executa a sangue frio um suspeito vietcong. O fotógrafo Eddie Adams captura o momento exacto em que os miolos do homem são estraçalhados pela bala. Por mostrar a brutalidade do conflito, a fotografia transformou-se num ícone e acelerou a derrota militar dos EUA no Vietname. Desta vez, pode ter sido o erro de um soldado assustado, mas a morte de um prisioneiro de guerra desarmado e gravemente ferido possui a marca da vergonha associada ao exercício cego do poder. As imagens captadas pelo repórter da NBC Kevin Sites têm a força de um ícone. Os marines haviam perdido um homem ao explodir o corpo armadilhado de um rebelde que jazia morto no campo de batalha. Os soldados viram o que acontecia aos habitantes, submetidos à tirania de oito meses dos mujahedin, que impuseram um fanático regime radical na cidade. Mas, da batalha de Fallujah, talvez reste apenas a memória deste estúpido desperdício.. Luís Naves