Humor de Produção

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Foi uma noite em pleno para este vosso cronista. E para a Casa Fernando Pessoa também. Desde manhãzinha que só recebia mensagens de estimáveis amigos e conhecidos a perguntar se me via "mais logo na FNAC", o que obrigou a uma confirmação de agenda até perceber a confusão: na loja do Chiado, Pedro Rolo Duarte apresentava o romance de Mónica Marques, Transa Atlântica. Eu, apesar de o título dar vontade de rir e não tendo recebido o dom da ubiquidade, já antes optara por outros momentos de galhofa, jocosidade e sátira.

Foi assim com agrado e apenas graças à simpatia extrema da Inês Pedrosa que me sentei na primeira fila de uma sala cheia para a conversa em torno da Antologia do Humor Português, organizada pelo Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos. A Inês, ao que sei, foi convidada a juntar-se à rapaziada das Produções Fictícias depois de escrever um livro sobre a sua história, cujo nome agora não me recorda (e a Internet foi abaixo, por isso adiante).

Além de ambos, sentavam-se em redor da mesa o moderador João Paulo Cotrim, Pedro Mexia, Nuno Markl, Miguel Guilherme e Maria Rueff. Dado que "uma antologia é uma lista de nomes", como revelaria João Paulo Cotrim à, até esse momento, ignara audiência, não vou desfilar aqui o rol dos autores incluídos. Mas foram muitos e com textos recolhidos a partir de 1969, data essa que mereceu desde logo um comentário de Nuno Artur Silva recordando Mota Amaral, "esse humorista profissional". Nem de propósito, Rueff leria em seguida o Soneto ao Deputado Morgado, de Natália Correia. "Onde se lê truca-truca, leia-se truca-truca truca-truca", terá Natália respondido ao representante da Nação, quando este replicou alegando ter dois filhos.

Estava desta maneira a plateia já embalada quando, minutos depois, Pedro Mexia proferiu a tirada "esta antologia não é grande coisa". Aqueles que o conhecem pior ainda pestanejaram, mas logo depois lá explicou que tal se devia apenas à inclusão dos seus textos. Para Mexia, que ao contrário de Cotrim pediu a Inês autorização antes de utilizar a palavra "paradigma", o mundo dos blogues (como o dele) "não existiria sem o Herman e sem O Independente". Herman seria aliás amplamente mencionado e em especial por Nuno Artur Silva. Já agora ficam a saber que Hermann tinha dois énes no nome quando ainda tocava guitarra baixo ao lado de José Jorge Letria e outros, cantando Quem Tem Medo do Comunismo? Mas essa, tendo igualmente um potencial de gargalhada elevado, é toda uma outra história.

Também para Nuno Markl a tirada da modéstia foi irresistível: "Choca-me imenso que o meu nome, tal como o do Pedro Mexia, esteja no mesmo livro que o Mário Henrique Leiria". Disparates.

A seguir a isso houve de tudo e, em especial, versos divertidíssimos brilhantemente lidos pelos dois actores, incluindo um chorrilho de palavrões que - mesmo literários e retirados de poemas de conteúdo tão inquestionável quanto os de Cesariny sobre Fernando Pessoa e de O'Neill sobre o Orgasmo da Micas - não são reproduzíveis nesta página onde a decência habita. "Para nós, actores habituados ao humor, O'Neill é o grande mestre", diria Rueff.

Houve ainda oportunidade para Mexia exibir a capa do recém-editado livro de João Rendeiro, ex-presidente do BPP, ostentando na capa o autocolante "invista com segurança". E igualmente para elogios ao ausente Nuno Costa Santos, nessa altura a fazer de DJ no Frágil por ocasião da festa dos blogues Atlântico/31 da Armada. "O Nuno Costa Santos é o humorista mais português da nova geração", alguém disse. E logo se leram diversos aforismos melancómicos da sua autoria para o comprovar. Horas depois, eu e o Costa Santos deixaríamos tarde e más horas a discoteca Incógnito, mas esta, desculpar-me-ão, é que é mesmo toda uma outra história.

Este vosso cronista ausentou-se após Miguel Guilherme ler uma crónica de Miguel Esteves Cardoso - "alguém que vem de fora", como diria Mexia - sobre a utilização dos palavrões pelos portugueses. As gargalhadas ecoaram. "O MEC é o Herman da imprensa", afirmaria logo Nuno Artur Silva, mencionando o humorista pela enésima vez. Retirei-me. Mas não sem antes fazer prometer ao Luís Graça o envio do registo da História Trágico-Erótica de Portugal, esse clássico da nossa sátira escrito por César de Oliveira (se a memória não se me corroeu) e lido há muitos anos na rádio por Nicolau Breyner, um acontecimento ao que parece ignorado por todos os presentes, excepto eu e o Luís.

Quando saí, minutos antes de tudo terminar ou pelo menos assim o espero, a sala continuava repleta e uma dúzia de pessoas acompanhava o acontecimento na sala de baixo, através de um ecrã. Como diria Nuno Artur Silva, só faltou o Herman.

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