Humanos como nós

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Olho para uma ativista afegã a tentar fugir do país e vejo um judeu a procurar escapar ao nazismo. Dessa perseguição aos judeus conhecemos bem a história: morreram milhões, muitos deles porque não conseguiram qualquer país que os recebesse. Como será agora no Afeganistão?

Mais de 70 anos passados, o horror dos refugiados continua. Desesperados, procuram sair dos seus países com esperança de que algum outro os acolha. Agora como então, muitas portas se fecham.

O primeiro-ministro esloveno, Janez Jansa, a presidir atualmente ao Conselho da UE, disse que a União Europeia "não abrirá qualquer corredor "humanitário" ou de migração do Afeganistão". Uma frieza que faz gelar o sangue.

O primeiro-ministro austríaco afina pelo mesmo diapasão. Que direita europeia é esta a que escapa o mais basilar sentido de solidariedade, de humanidade?

Não é só em Portugal que a direita moderada caminha na direção da extrema-direita; os parceiros europeus do PSD seguem o mesmo caminho.

Nestes momentos dramáticos para tantos afegãos - e para muitos milhões em todo o mundo - é preciso deixar bem claro que esses não são os nossos valores; essa não é a nossa Europa.

Essa não é sequer a posição da maioria dos Estados membros e Jansa não deveria ter falado como se fosse. E essa não poderá ser a posição do Parlamento Europeu, que em breve se pronunciará. Veremos então, com clareza, como se posiciona cada grupo político e cada eurodeputado.

O drama que se vive no Afeganistão não pode deixar de nos tocar. A vida daquelas pessoas não vale menos do que a de qualquer outra. Temos a obrigação moral de ajudar.

Acresce que temos também a nossa quota de responsabilidade. Portugal e muitos outros países europeus participaram com militares nessa operação da NATO que agora cessou de forma catastrófica. Estivemos envolvidos; somos também responsáveis.

A União Europeia - e os outros atores internacionais - não podem agora lavar as suas mãos e considerar que os refugiados são um problema regional. Os países vizinhos podem dar um importante contributo, mas não foram eles que invadiram o Afeganistão.

Temos, portanto, de assegurar uma via segura para a rápida retirada de refugiados, aplicando depois uma justa distribuição destes pelos diferentes Estados membros.

Isso requer uma verdadeira política europeia para refugiados, superando os egoísmos e protecionismos nacionais. É, certamente, difícil. Mas uma União Europeia que consegue pôr-se de acordo acerca das características dos enchidos ou o tamanho da sardinha, tem de ser capaz de se entender relativamente aos refugiados. Haverá outra coisa mais importante do que uma política para salvar vidas?

Se homenageamos Aristides de Sousa Mendes por ter salvado milhares de vidas com a emissão de vistos contra as instruções do regime, é porque as suas ações eram a exceção. A regra, em Portugal e nos restantes países, era a restrição à entrada de refugiados. Como agora.

Quem iremos, um dia, homenagear por causa dos refugiados afegãos?

Se a União Europeia não for baseada em valores, dificilmente será algo por que valha a pena lutar.

15 VALORES
David Sassoli

O presidente do Parlamento Europeu foi muito crítico relativamente à falta de disponibilidade dos Estados membros para acolher refugiados: "Não podemos fingir que a questão afegã não nos diz respeito porque participámos nessa missão e partilhámos os seus objetivos e metas." Que esta posição, solidária e realista, faça caminho e a UE assuma as responsabilidades que lhe competem.

Eurodeputado

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