«O hotel é uma maravilha. Ou era (estava em restauro aquando da visita ao estaleiro). Mas quero ir lá na mesma, pela Agatha Christie», bichanava a senhora Otília Domingues aos companheiros de viagem no passeio pela avenida Istiklai, de Istambul, na Turquia. Mesmo em obras, e com o mítico quarto 411 inacessível a olhares curiosos, a viajante insistia em ir ao Pera Palace «cuscar» o lugar onde a «rainha do crime» escreveu Um Crime no Expresso do Oriente. Para Otília, 62 anos, assídua de longa data de moradas célebres no mundo, o prolongar da fama de um hotel deve-se sobretudo à histórias dos famosos que por lá passam e reincidem, «e trazem um batalhão de curiosos como eu atrás». E ficam encantados com a batida das ondas no molhe do Villa d"Este, no lago Como, em Itália, que inspirou A Cartuxa de Parma, de Stendhal, ou o burburinho das ruas vizinhas do hotel Ambos Mundos, de Havana, onde Hemingway escreveu O Adeus às Armas. .De Witte Lelie.Antuérpia, Bélgica.O De Witte Lelie é um hotel situado na Keizerstraat, uma das ruas mais antigas e distintas de Antuérpia e cuja data de fundação remonta ao século xvii. A casa, que na verdade eram três, pertenceu ao pintor Peter Paul Rubens, ao seu cunhado Baltazar e ao célebre retratista de animais Frans Snyders. Ficar hoje no De Witte Lelie é como ser parte do cenário de A Rapariga do Brinco de Pérola. Ou seja, uma combinação astuta do antigo e do moderno que lhe confere um romantismo intemporal. A luz é o forte da casa, mas a luz natural e não a que emana dos candeeiros, lustres, candelabros... Um engenhoso conjunto de janelões a pique e tectos de vidro permite que a mais remota nesga de sol encharque o recanto mais escuro. Depois, há uma claridade neste hotelzinho palaciano que permite a coabitação pacífica de singelas cadeiras de veludo e candelabros barrocos desmedidos. Nada no De Witte Lelie parece deslocado ou metido à força como argumento trendy. Esta noção de como usar um espaço e torná-lo sensual é o que distingue os belgas flamengos dos seus pragmáticos vizinhos dos Países-Baixos. .Hotel Ambos Mundos.Havana, Cuba.O primeiro refúgio cubano do escritor norte-americano Ernest Hemingway foi o Hotel Ambos Mundos, de Havana Vieja, hoje o segundo lugar mais procurado pelos seus aficionados, a seguir à Bodeguita del Médio. Na década de 1930, Hemingway fez do hotel a base de operações das suas campanhas de pesca grossa na corrente do Golfo. Alugou o quarto ao mês, por uma centena de pesos. Uma assoalhada lúgubre e sem número, no quinto piso, mobilada com duas mesas-de-cabeceira e uma cama de casal de madeira ordinária, além de um penico e um estirador adornado por uma vasilha. As janelas dão para a antiga catedral e a entrada do porto e do mar, ao norte. A maravilha de então - e de agora - eram os telhados do casario que se estende como uma onda larga até ao molhe. O quarto mantém-se intacto, em memória do escritor, tendo por companhia um precioso exemplar da primeira edição de Dom Quixote, de Cervantes..Hotel Carlton.Bratislava, Eslováquia .A morada histórica de Bratislava, a capital da Eslováquia, é o Carlton Hotel, na praça Hviezdolslavovo. O hotel, que foi frequentado há mais de cem anos pelo inventor Thomas Edison, o compositor Brahms e o presidente norte-americano Theodore Roosevelt, é agora um alojamento de referência onde ilustres como Sir Elton John ou Robbie Williams se instalam com a mesma pompa de quem fica no Savoy de Paris. O viajante comum poderá instalar-se no Carlton e experimentar o vício do luxo deitado num canapé do terraço da suite 76, entre canteiros de buxos, salva-brava e rododendros, e flûtes de champanhe servidas à cadência do relógio de cuco por empregados poliglotas. A vista da praça Hviezdolslavovo que se tem das varandas do Carlton é dominada pelos edifícios da Ópera e da Orquestra Filarmónica, as maravilhas de arte nova e, no quarteirão de prédios barrocos, pelo terraço do restaurante Le Monde, que traz de propósito à cidade checos e vienenses de gosto requintado..Hotel Celica.Ljubljana, Eslovénia.O Metelkova Mesto é um antigo quartel ocupado pelos estudantes depois da independência da Eslovénia da ex-Jugoslávia. No dia em que o novo aparelho de Estado se preparava para demolir os edifícios, numa tentativa de apagar memórias tristes ou de reescrever a história, os jovens não arredaram pé e o rescaldo foi uma vitória civil. Hoje, o Metelkova Mesto é um espaço cultural de referência, com ateliers, bares, cafés e o Hotel Celica, um antigo presídio convertido em pousada da juventude. O que aqui se fez foi uma concessão original de um espaço público aos artistas do burgo, que puseram e dispuseram das antigas celas para criarem um dos hotéis mais alternativos do mundo. Nenhum dos quartos é igual ao outro e, mesmo fechado a sete chaves, e para lá das grades, o mais certo é apetecer, como a um condenado, marcar os dias na parede... mas que não acabe tão cedo a pena a cumprir..Maria Cristina.San Sebastian, Espanha.Na lendária Riviera basca, onde a realeza espanhola ia a banhos no século xix, mantém-se intemporal um admirável mundo velho de estilo vitoriano. Na hotelaria o expoente é ainda o Maria Cristina, um colosso de 1912, do arquitecto francês Charles Mewes, autor dos hotéis Ritz de Paris e Madrid. Quem procura o esplendor do revivalismo barroco é aqui que deve ficar, defronte para a baía de La Concha, o leito indolente do rio Urumea e paredes meias com o histórico teatro Victoria Eugenia e a sua forma de bolo de noiva. Será instalado numa opulenta suite (não há quartos menores), decorada com reposteiros de seda, camas de carvalho inglês, banheiras de mármore de Carrara e tratado como um aristocrata ou um rei no exílio. A vantagem - para os clientes de tipo romântico - é ter menu completo de degustação de tudo o que vem sugerido nas velhas cartilhas do luxo e por um preço do antigamente. Dominam os salões palacianos (por exemplo, a sala de jantar entre colunas de mármore de Carrara) e bares apainelados..Hotel del Coronado (The Del).Coronado, EUA.Os locais conhecem-no apenas por The Del, a abreviatura de Hotel del Coronado, o mais distinto resort de praia da Califórnia. Quando abriu portas, em 1888, era o maior resort do mundo e o primeiro com luz eléctrica. Ao longo do século xx hospedou desde presidentes (todos sem excepção, de Franklin Roosevelt a Barack Obama) a realezas e celebridades que o tornaram o recreio de Hollywood. Além da galeria de notáveis que pernoitaram no The Del - Thomas Edison (que inspeccionou a rede eléctrica inaugural), Charlie Chaplin, Babe Ruth, Vincent Price, entre muitos outros -, é um dos hotéis mais cobiçados por artistas de todos os cantos do planeta. L. Frank Baum, por exemplo, escreveu aqui grande parte de O Feiticeiro de Oz. O cinema imortalizou-o com o filme Quanto Mais Quente Melhor e as poses de praia de Marilyn Monroe diante dos olhares concupiscentes de Tony Curtis e Jack Lemmon..Hameau Albert Premier.Chamonix, França.O Hameau Albert Premier é o único representante digno do nome de hotel de charme em Chamonix. Herdou o nome do rei belga que era visita assídua de Chamonix e Megève e que gostava de subir a vertente íngreme do Mer de Glace (Mar de Gelo) acompanhado pelo seu cão são-bernardo Vincent, de uma merenda de queijos e um cantil de whisky de malte. Falar do Hameau Albert é falar do seu pater familias, Monsieur Carrier, um perfeccionista da arquitectura e do humanismo cuja utopia era construir um hotel onde o viajante se sentisse em casa. A utopia de Carrier perdura e o correr dos anos (o hotel data do início do século xx) não lhe tirou o carácter hospitaleiro e estilizado. Os herdeiros de Carrier souberam manter o legado, mesmo quando os Alpes se viram ameaçados pelo betão, nos anos setenta: o velho Hameau foi desmontado, trave por trave, pedra por pedra, e reconstruído como um Lego gigante numa quinta nos limites de Chamonix, na base da montanha e do glaciar..Hotel Mont Arbois.Megève, França.A fama de Megève, também conhecida por «Saint Tropez de Inverno», «Princesa dos Alpes» ou «A mais bela das estâncias de montanha francesas», deve-se à opulência dos seus chalets, hotéis e festas de beautiful people. Os culpados foram a baronesa Noémie de Rothschild e o escritor Jean Cocteau, que lhe deu a alcunha de 21.º arrondissement (bairro) de Paris. O Mont Arbois foi o primeiro hotel de cinco estrelas ali construído, na encosta com melhor panorâmica do vale. Entre os convidados para a festa da inauguração estiveram Alberto I, rei dos belgas, além das famílias Citroën, Hachette e Michelin. Nos anos de 1950, Megève tornou-se mais famosa pelos litros de champanhe Moët & Chandon deitados nas piscinas do que pelas soberbas pistas de esqui de Mont Joly, Mont Joux, St. Nicolas de Veroce, Le Bettex, Rochebrune, Cote 2000, Cret-du-Midi, Cristome ou Praz sur Arly, que todas juntas perfazem 420 quilómetros de pistas..Villa d"Este.Lago Como, Itália.Tolomeo Gallio, cardeal de Como e um dos mais afortunados comerciantes de seda do século XVI, foi um visionário quando escolheu a bifurcação de terra «selvagem, acidentada e pedregosa que cai sobre um lago» para mandar construir a obra de arquitectura assinada por Pellegrini a que chamou de Villa d"Este. Pellegrini regeu-se pelos princípios da Renascença que chegavam de Roma, Florença e Veneza, e construiu um palácio como um diadema, em cujo interior, apesar dos 130 quartos actuais, nunca perdeu a atmosfera de uma villa privada. A famosa Villa d"Este, em Cernobbio, nas margens do lago Como, é um lugar de conta modesta para o preço da sua excelência. E porque é que a diária vale mais aqui do que em muitos outros hotéis com o mesmo estatuto? Podemos dizer que é pelas camas king size, pela flûte de champanhe no banho, pelas ostras frescas servidas na varanda, pelo caviar saboreado no mezzanino, pelos empregados de asas de grilo e vénia diligente em cada porta e corredor, pelas passadeiras de Damasco, os mármores de Carrara, as sedas - as célebres sedas de Como que apaixonaram Yves Saint-Laurent e Jean-Paul Gaultier -, ou pelos jardins renascentistas atapetados de flores e adornados por canteiros de buxo aparados com formas inverosímeis. A diferença é que este bricabraque de clichés do luxo nada tem que ver com uma ostentação intimidatória. É o que é - e envolvido no cenário inimitável onde Fabrício nadou e se perdeu de amores no épico A Cartuxa de Parma, de Stendhal, um dos hóspedes mais ilustres da villa mais célebre do lago..Stanley Hotel.Nairobi, Quénia.Todos os safaris partem de Nairobi, e quem chega não deve perder a ocasião de dormir uma noite no Stanley Hotel, poiso de ilustres como Clark Gable, Ava Gardner, Hemingway ou Karen Blixen antes de esta comprar a sua mítica propriedade imortalizada em África Minha. O hotel data de 1902 e é uma espécie de museu e arquivo fotográfico do colonialismo vitoriano. Foi renovado e não cheira a bolas de naftalina, parecendo-se com qualquer hotel de cinco estrelas internacional, excepto em matéria de espólio, sobretudo a colecção de fotografias das celebridades que por aqui passaram. Das janelas do Stanley, como numa miragem, podem ver-se gazelas Thompson e Grant, girafas Rotschild, topis, impalas, chitas, elefantes ou búfalos. .Finch Hattons.Parque Tsavo, Quénia.Da geração Blixen e Hemingway, para nomear apenas dois dos mais ilustres tribunos de África, sobra a ideia romântica de acampamento que tem o seu esplendor no parque Tsavo, lugar do Finch Hattons, e do Sarova Shaba Lodge, na reserva de Shaba. Do parque Tsavo, criado em 1948, fica a nota sumária da sua área colossal - mais de oito mil quilómetros quadrados de savana árida e pântanos. O Finch Hattons fica na metade oeste, no sopé dos montes Chyulu com vistas panorâmicas do Kilimanjaro, e pretende ser o mais próximo de um acampamento pioneiro. O resultado é um elenco de sumptuosas tendas dispostas sobre um pequeno lago que é a piscina natural da comunidade de hipopótamos, crocodilos e centenas de aves. Além das tendas, uma piscina, uma sala de estar (com sofás de chintz e retratos de Blixen, Hatton e do corso de amigos) e outra de jantar com empregados saídos das páginas de África Minha, o Finch Hattons estende-se por um oásis alimentado por uma ribeira que corre entre paredes de lava e que culmina nas quedas de água de Mzima. Enquanto o resto da paisagem é seca a maior parte do ano, Finch Hattons nunca perde o verde luxuriante. Os aposentos limitam-se a uma cama de mogno, uma escrivaninha, um guarda-fatos, uma casa de banho palaciana e um deck com duas espreguiçadeiras sobre o lago. Por curiosidade, a única queixa do livro de reclamações deveu-se ao ruído excessivo dos babuínos..Pera Palace.Istambul, Turquia .Entre 1926 e 1932, Agatha Christie hospedou-se todos os anos, por períodos dilatados, no Hotel Pera Palace, no bairro de Tepebasi de Istambul. A escritora inglesa de romances policiais (já então uma celebridade) tinha lugar cativo no quarto 411, juntamente com o seu segundo marido, o arqueólogo Sir Max Mallowan. O 411 era (e voltará a ser depois da remodelação em curso) uma suite opulenta de 46 metros quadrados, dotada da atmosfera de melancolia e enigma de que ela precisava para escrever. Ali se diz ter sido escrito Um Crime no Expresso do Oriente (mais tarde filmado na gare principal da cidade). Os diários que provariam a escrita do livro no hotel desapareceram misteriosamente, daí a mera sugestão de que terá sido aquele o local da redacção da mais célebre trama da escritora inglesa. Após a remodelação, o quarto oferecerá aos interessados no revivalismo da «rainha do crime» a cama king size onde a escritora dormiu, a secretária onde urdia os seus enredos e a sua obra completa em várias línguas (os seus livros são os terceiros mais traduzidos no mundo, superados apenas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare)..Dois hotéis históricos em Portugal.Lawrence's Hotel.Sintra.Situado na vila de Sintra e inaugurado em 1764, é o hotel mais antigo da Península Ibérica. Esteve fechado mais de trinta anos e reabriu em 1999, após uma remodelação profunda. Manteve-se a fachada original e o ambiente romântico, mais condizente com um solar privado do que um hotel. Os quartos foram baptizados com os nomes de hóspedes famosos como Lord Byron, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz ou Ramalho Ortigão..Palace Hotel do Bussaco.Buçaco.Considerado um dos mais belos e românticos hotéis do mundo, o Palace Hotel do Bussaco, de estilo neomanuelino, está situado num palácio de caça dos últimos reis de Portugal. Em redor fica a mata do Buçaco (Mealhada), implantada pela ordem dos Carmelitas no primeiro quartel do século xvii, com espécies vegetais de todo o mundo, além do mundialmente famoso cedro do Buçaco. O hotel está mobilado e decorado com frescos, quadros e painéis de azulejos que representam a época dos Descobrimentos e cenas da batalha ali travada em 1810, em que as forças anglo-portuguesas comandadas por Wellington venceram o exército napoleónico na terceira invasão francesa.