Com muitos aplausos, flores, música e o inconfundível som dos bombos locais, foi assim que António Guterres, alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, foi ontem recebido por várias dezenas de populares na localidade de Donas, a aldeia que fica a menos de seis quilómetros do Fundão e que o ex-primeiro-ministro sempre apontou como sendo a sua "terra natal", isto apesar de ter nascido em Lisboa. .Um pormenor que nunca o impediu de se afirmar beirão, com raízes fundanenses. Ao longo do seu percurso político, este homem insistiu sempre na sua ligação ao distrito (foi presidente da Assembleia Municipal do Fundão e deputado eleito pelo círculo de Castelo Branco). A distinção e o carinho foram ontem retribuídos numa cerimónia de homenagem organizada pela junta de freguesia. No mesmo dia, "o filho mais ilustre da terra" recebeu uma medalha de mérito, descerrou placas toponímicas com o seu próprio nome e inaugurou o Espaço Museológico Engenheiro António Guterres. Concluído o protocolo, juntou-se aos populares que há muito o aguardavam. Humildemente, aceitou os beijos e os abraços que todos insistiam em distribuir..João Cavaca era um entre os muitos que fizeram questão de estar presentes. "Vim de Lisboa de propósito para participar porque ele é um conterrâneo nosso que faz muito pela terra. É um cartão-de-visita onde quer que se vá. Ele é um grande homem, senão não o tinham escolhido para o cargo que escolheram. Se calhar, no País, não lhe dão a merecida importância, mas este foi um homem que fez obra. Aqui para a nossa Cova da Beira trouxe por exemplo a A23 para a nossa porta", sublinha este homem que conviveu muito com Guterres e que, por conhecer bem a história da família, reivindica agora uma homenagem para o homem que "trouxe o caminho-de-ferro para o Fundão, o avô do ex-governante. .Guterres não ouviu este companheiro de infância, mas as suas palavras deixaram claro que dividiu este dia com o avô: "A ligação que tenho às Dona vem-me do meu avô materno, natural desta terra. Ele que nunca tinha tido um filho varão entusiasmou-se tanto com o nascimento do primeiro neto homem que exigiu aos meus pais que eu passasse aqui as férias." ."Eles acederam e, sem saberem, estavam a lançar grandes sementes naquilo que eu viria a ser." "Primeiro porque com o meu avô - homem generoso e justo - fui aprendendo algumas das grandes lições da vida. Este homem, que foi uma das figuras centrais da minha vida, ensinou-me que a nossa condição privilegiada - não éramos ricos, mas vivíamos melhor do que outros - devia ser aproveitada em prol dos outros", começou por explicar no discurso proferido na sala da Assembleia Municipal do Fundão que se revelou pequena para acolher todos os presentes.. A ouvi-lo estavam várias personalidades da região e a sua família. Aí, os populares eram menos, mas Guterres não os esqueceu. "Devo muito do que sou às Donas. Foi aqui e com estas pessoas simples que aprendi que o valor da nossa palavra é fundamental e, também, foi aqui que senti pela primeira vez o choque da injustiça. Nessa primeira infância, nos anos 50, via os meus amigos desta terra andarem descalços e a passarem dificuldades. E isso marcou-me. Marcou-me no sentido de as injustiças terem de ser corrigidas e nós devemos contribuir para isso. Desde essa altura tenho sempre isso presente", sublinhou num discurso carregado de referências telúricas e no fim do qual teve dificuldade em esconder a emoção.|