"Hoje, nos quarentas, a minha divisa é: "Antes morrer livre do que em paz sujeito""

O famoso questionário Proust respondido pelo argumentista e comediante Luís Filipe Borges.
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A sua virtude preferida?
Versatilidade.

A qualidade que mais aprecia num homem?
Franqueza.

A qualidade que mais aprecia numa mulher?
Sentido de humor.

O que aprecia mais nos seus amigos?
A capacidade de me compreenderem e perdoarem, mesmo quando me isolo.

O seu principal defeito?
Dispersão.

A sua ocupação preferida?
Ler. Ler. Ler. Ler. Ler. Não sei se já disse, ler.

Qual é a sua ideia de "felicidade perfeita"?
São momentos, necessariamente fugazes mas plenos, em que uma pessoa se esquece dos problemas, vive apenas (para citar William Blake) o minuto presente, se esquece até de que vai morrer. Por exemplo, há dias nadei com o meu filho numa piscina interior de um hotel, com chuva lá fora e ninguém além de nós lá dentro.

Um desgosto?
Ser impossível de reverter a velhice dos meus pais.

O que é que gostaria de ser?
Estou satisfeito, diria até orgulhoso, com aquilo que sou. Fiz tudo o que sonhava fazer e tenho conseguido repetir. Sem pisar calos alheios.

Em que país gostaria de viver?
Não é um país, mas no meu coração é como se fosse. Nos Açores. Qualquer ilha. De preferência em todas, um ano de cada vez, num eterno retorno.

A cor preferida?
Apesar de benfiquista, é o azul.

A flor de que gosta?
Percebo tanto de flores como de astrofísica. Mas guardo uma rosa amarela que trouxe do funeral do meu amigo Pedro Lima.

O pássaro que prefere?
É-me indiferente.

O autor preferido em prosa?
Ex aequo muitíssimo renhido para Charles Bukowski, Haruki Murakami, Paul Auster, Eça de Queiroz e John Steinbeck.

Poetas preferidos?
Sophia, Natália Correia, Sylvia Plath, Maria Teresa Horta.

O seu herói da ficção?
Jed Bartlet (West Wing).

Heroínas favoritas na ficção?
Ellen Ripley (Alien), Sarah Connor (Terminator), Scully (X-Files).

Os heróis da vida real?
Dave Chapelle, Jon Stewart, Anthony Bourdain, Aaron Sorkin, Orson Welles.

As heroínas históricas?
As sufragistas portuguesas como Ana de Castro Osório, Adelaide Cabete, Virgínia Quaresma ou Carolina Beatriz Ângelo. Espero concretizar uma série sobre elas.

Os pintores preferidos?
Basquiat, Dalí, Caravaggio.

Compositores preferidos?
Leonard Cohen, Jorge Palma, Paul McCartney, David Gray, Nick Cave.

Os seus nomes preferidos?
Tomé, nome do filho. Fausto, se houver próximo. Ambos mérito da mãe, sendo que odiei quando a Sara primeiro os plantou na minha cabeça. Mas não é que germinaram?

O que detesta acima de tudo?
Gente que não responde, não cumprimenta, ou os de meias-tintas e pose de profunda seriedade - que se acham muito importantezinhos do alto do seu imaginário pedestal.

A personagem histórica que mais despreza?
Qualquer ditador. Portanto, e no respeitante aos current affairs, Vladimir Putin.

O feito militar que mais admira?
A minha versão adolescente vibrava com os detalhes da Batalha de Aljubarrota, em particular os relativos à Ala dos Namorados. Mas se formos ler os historiadores de nuestros hermanos já chamam àquilo uma "retirada estratégica". E, se um emoji não fosse indigno da honra de ser alvo deste questionário, acrescentaria aqui uma piscadela de olho.

O dom da natureza que gostaria de ter?
A memória dos elefantes e a força do mar.

Como gostaria de morrer?
Com garantia de que o meu filho está orientado, pelo menos razoavelmente feliz e, se possível, durante o sono.

Estado de espírito atual?
Absolutamente exausto. Mas ainda capaz de rir.

Os erros que lhe inspiram maior indulgência?
Qualquer um que seja originário dos desesperos amorosos.

A sua divisa?
Já foi uma deixa do portentoso "As Luzes da Ribalta", de Charlie Chaplin, proferida a páginas tantas pela sua própria personagem: "A vida é maravilhosa quando não se tem medo". Nos meus trintas foi uma citação de Beckett: "Tenta. Falha. Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor". Mas hoje, nos quarentas, é: "Antes morrer livre do que em paz sujeito". O lema dos Açores, escrito em carta destinada a Filipe II por Ciprião de Figueiredo, então corregedor do arquipélago.

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