No seu livro Assombrações, Vernon Lee reúne quatro contos exemplares e belíssimos, dedilhados pelo maravilhamento de universos inacessíveis, pelo mistério, por factos inexplicáveis, por fantasmas. Mas, sobretudo, «por coisas da imaginação», como aliás reconhece a própria autora no seu prefácio «coisas da imaginação nela nascidas, nela criadas, brotadas dos estranhos e confusos amontoados, metade lixo e metade tesouro, que existem na nossa fantasia, de impressões vivas mas fragmentárias, emaranhados de farrapos multicoloridos e de ervas e de flores murchas, das quais se evola aquele odor (todos nós o conhecemos), bafiento e húmido.» .Sem que por isso este seu livro deixe de ser mágico ou empolgante, menos misterioso e menos assustador, imaginário que nos assombra, que nos transporta ao coração da criação artística. Quatro contos correspondendo cada um deles à pintura, à escultura, à música, elas mesmas atingidas pelo poder da assombração, portadoras, portanto, de magia que pode iluminar, enriquecer, mas igualmente transformar, embruxar o nosso universo interior, através da sua leitura..Encantamentos que Vernon Lee organiza a partir quer do passado quer de pessoas que tendo vivido noutros tempos regressam à vida no nosso presente, devido ao poder encantatório e mágico da arte. Indo em seguida atingir outras personagens e escritas, devido à sua força transformadora. E desse modo, ciente das múltiplas transfigurações que a literatura opera, Vernon Lee escreve desejando tocar-nos com os seus fantasmas, que nestes textos usa ora como factor de perseverança ora como factor de perturbação. O que fica bem patente nos seus textos «Amour Dure» e «Oke de Okehurst», o primeiro crescendo e ardendo no terreno da paixão, e o segundo perdendo-se e recriando-se na turbação da poesia..Fantasmas cruéis apesar de espúrios, como ela faz questão de afirmar «Os meus fantasmas são aquilo que vós chamais espúrios (em minha opinião os únicos autênticos), dos quais uma única coisa posso afirmar, que eles assombram cérebros e que assombram, entre outros, o meu e os dos meus amigos.» E acrescenta convocando a inesquecível Flora Priestley para relembrar Shelley, aquele que entre os poetas ingleses românticos do século XIX se mantém ainda agora como uma figura fascinante. Alguém que, como lembra Lee, cumpriu a essência da sua poesia até à insubordinação da morte... «rodeado pela bruma dos raios de luar e dos ramos da oliveira, querida Flora Priestley, enquanto o mar enluarado gemia e chocalhava nas paredes a desfazerem-se donde Shelley se fez à vela para a eternidade»..Dubiamente, Assombrações é construído com a matéria da sombra e do negrume, na esteira do excesso e do desejo ardente, apaixonante e apaixonado do grupo de Byron e de Mary Shelley, época que através deste livro nos chega com o seu encantamento intacto. A dar- -nos a conhecer Vernon Lee, uma das vozes mais importantes e audazes da literatura europeia do final do século XIX, que enquanto autora desobediente às regras e às mordaças misóginas, soube fazer de forma inteligente a passagem da 'literatura negra' para o século XX. Deste modo tecendo com grande inteligência a ligação entre a novela gótica e a modernidade..Escritora até agora injustamente ignorada entre nós, senhora de um imaginário opalescente, Vernon Lee soube ser uma autora tão depressa rigorosa e severa como cintilante e perturbadora, o que fica claramente demonstrado neste volume de contos, através de um rigoroso trabalho da linguagem, a entrançar a luz com as trevas, a morte com a vida. Unindo a poesia ardente com a crueza do mármore, a música translúcida com a profundeza recôndita da pintura. O misterioso aroma do inexplicável, com a voracidade ávida da paixão eterna.