Os congressos dos partidos, com a introdução da democracia direta, transformaram-se em espaços de aclamação das lideranças em que a propaganda e o comício substituíram o debate, o confronto de ideias e a apresentação de propostas. E o encontro laranja do passado fim de semana não foi exceção a esta regra..Em três dias ouviu-se dizer que o País "está muito melhor", embora a vida das pessoas esteja cada vez pior. Escutaram-se hossanas ao presidente do PSD - por acaso primeiro-ministro - apesar da eutanásia da matriz social-democrata do partido. Glorificou-se o empobrecimento como se este fosse a via única para a "soberania" económica e financeira ou, como notou Marcelo Rebelo de Sousa, para um novo 1.º de Dezembro de 1640 que não existe. E, pasme-se, tal como Jesus Cristo fez com Lázaro, também Pedro Passos Coelho se virou para Miguel Relvas para lhe dizer "levanta-te e anda"..A reabilitação política do ex-ministro é, porventura, a melhor resposta à pergunta lançada do púlpito por Pedro Passos Coelho, logo na sexta-feira: "O País está melhor ou pior do que há dois anos?" .Miguel Relvas não cometeu qualquer crime. Mas não é preciso fazê-lo para se ter tornado proscrito entre os "irmãos" de partido. O silêncio gélido com que o anúncio do seu nome foi recebido pelos congressistas, a recusa em fazer comentários e o fraco resultado que a lista por si encabeçada ao Conselho Nacional obteve são bem a prova de que a teimosia de Passos Coelho não foi bem recebida no PSD..Há 11 meses, quando se demitiu do Governo submerso em polémicas e trapalhadas constantes, a última das quais a verificação do seu processo de licenciatura na Universidade Lusófona, alegou falta de força anímica para continuar mas não deixou de lembrar o papel que teve no percurso que conduziu Pedro Passos Coelho primeiro à liderança do PSD e depois à chefia do Governo. Pode vislumbrar-se na decisão do líder social-democrata a virtude de quem não esquece os amigos e lhes dá a mão na primeira oportunidade. Mas as afirmações públicas feitas a 4 de abril de 2013, no momento da saída, não podem nem devem ser ignoradas. .Miguel Relvas é, ninguém duvida, um homem influente e com poder. E este seu regresso à política ativa - por mais que ele diga que o não é - é a demonstração de que a social-democracia até pode ter saído dele, mas ele nunca se afastou verdadeiramente do primeiro-ministro e do Governo. E do partido, cuja máquina ou aparelho conhece de olhos fechados, muito menos..O ano em curso e os próximos dois são de eleições. Europeias já a 25 de maio, legislativas em meados de 2015 e presidenciais no início de 2016. Se há decisão que o Conselho Nacional do PSD é chamado a tomar é a da aprovação dos diversos candidatos concorrentes aos sucessivos atos eleitorais. E, como é evidente, Relvas não deixará de assumir aquela que é uma das suas tarefas prediletas: participar nas escolhas que o PSD tem para fazer..Uns meses antes das eleições de 2011, ainda como secretário-geral do partido, surgia na capa da revista Notícias Magazine de avental e colher de pau na mão, a mexer uma panela. Além do gosto pela cozinha, a imagem revelava que Miguel Relvas é homem de ação e de mexer os cordelinhos partidários. .Não será estranho pois que, passado o choque inicial da revelação do seu ressurgimento político, muitos daqueles que passaram os últimos anos a zurzir na personagem acabem por ir ao "beija--mão" à São Caetano à Lapa, como, no passado fim de semana, alguns rumaram ao Coliseu para o fazer com Passos Coelho. É que, como diz o povo, a vingança serve--se fria e será esse o momento para que no PSD nasça uma nova palavra de ordem: hipócritas de todo o mundo laranja uni-vos!