'Hip hop' contra visões normativas de masculinidade
Há algumas semanas, em conversa telefónica com o DN, o rapper Le1f contava que a sua formação passa, em grande parte, pela dança. Tanto a mãe como a avó pisaram o palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, e desde cedo que estudou dança, tendo mesmo feito um curso académico onde se centrava nas correntes do voguing e do butoh.
Essa influência do lado performático da dança foi visível no concerto que ontem à noite deu na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, marcando assim a sua estreia em palcos nacionais.
Ficou também clara a ideia de que a figura de Le1f não se rege pelos lugares comuns que se lhe possam associar. Se por um lado é constantemente vinculado à cena queer rap, por outro no palco da Zé dos Bois mostrou como a sua identidade enquanto rapper pode até ser considerada mais "conservadora" (o que, neste caso, não tem nada de pejorativo).
Pela dança e pela postura que tem em palco, Le1f vai claramente contra visões normativas de masculinidade associadas ao hip hop, não escondendo a sua exuberância gestual. Ao lado desta "costela" mais disruptiva está, no entanto, um identidade que segue de perto o rap mais conservador, onde não há ganchos pop que sejam facilmente trauteadas pelo público. Tecnicamente é um rapper irrepreensível e considerá-lo uma voz promissora no hip hop de hoje não é exagero, como se pôde comprovar ontem à noite. Mas, ainda assim, falta-lhe uma maior sabedoria em saber comunicar com o público quando este ainda não é um perfeito conhecedor da sua música, além de uma maior diversidade de abordagens ao hip hop (e seus variantes), algo que se sentiu no concerto da Zé dos Bois. No entanto, os temas apresentados de Dark York não deixam de revelar uma extrema vitalidade, como se fez notar no final com a festa que foi Wut.
Agora resta esperar pelo seu regresso, sendo que o rapper tem planeado para o final deste ano lançar mais uma mixtape.