Trump foi eleito e o meu filho mais velho diz que vai rapar o cabelo à escovinha numa espécie de sacrifício doutrinário. Está genuinamente deprimido. Revoltado. De repente a piadinha das redes sociais é presidente do seu país de referência, do seu berço cultural. O miúdo não queria acreditar que um palhaço podia ser líder do EUA e não relativiza. Sabe que não pode relativizar. É tudo demasiado importante nesta idade e os temas, sejam eles quais forem, são sempre fraturantes. A conclusão dele é que o sistema não funcionou. Não pode ter funcionado. As pessoas não são assim tão parvas e inconsequentes para terem votado num homem daqueles para liderar a fatia de leão dos destinos do mundo. Impossível. Ele não percebe e eu também não. Nada justifica. E a nossa conversa ficou aqui. Até que numa nova conversa perguntou-me se no meu tempo era possível isto acontecer. Se no meu tempo, o tempo de Reagan e de João Paulo II, era possível eleger um palhaço, com um discurso tão desconcertante quanto incoerente e radical, numa democracia como a americana. Pergunta a que não soube responder e refugiei-me na lógica: nunca apareceu ninguém assim. No meu tempo tínhamos facínoras a liderar os países para lá da Cortina de Ferro, tiranos em África e horrores na Ásia. Eram tempos mais cruéis do que os atuais mas nas democracias os eleitos não eram imitações de pastores evangélicos a apelarem ao pior que há nas massas eleitorais. Vão ser escritos tratados de ciência política sobre o Trump, a sua eleição, as sondagens, a saturação dos políticos do sistema, etc. Tudo isto deve ter uma explicação lógica, científica, que liga os problemas sociais aos políticos, a economia às ansiedades do eleitores. Mas a verdade, e é isso que assusta, é que ninguém consegue prever o que vai acontecer a seguir. O meu filho perguntava-me (ainda com cabelo) como é que vai ser agora: se ele cumprir o que prometeu, é insano; se não cumprir, quer dizer que as eleições, as campanhas, não valem um caracol e tudo é possível, incluindo arrancar olhos. A eleição de Trump tem como perigo potencial a legitimação social para a eleição dos Le Pen desta vida. Se até a América elege Trump... E, aí sim, devemos todos tremer as pernas. O que me custa mais é que os nossos filhos, que não têm culpa nenhuma da escolha dos pais, são quem vai apanhar os cacos.