Quando vivi na República Dominicana, em 1996, não podia deixar de passar a fronteira com o Haiti e pisar um outro país. Numa das viagens de reconhecimento do território dominicano, o jipe seguiu até a uma das "portas" de fronteira. Passámo-la a pé sem dificuldade e do outro lado havia uma feira tradicional. Chegavam da República Dominicana carripanas pintadas com desenhos alegres, coloridos e com legendas publicitárias, cheias de produtos para venda do lado dominicano, e ainda autocarros de passageiros. Isto aconteceu antes de o Governo da República Dominicana ter decidido construir um muro na fronteira para impedir a imigração ilegal, o que tem sido criticado internamente e por entidades estrangeiras, até porque muita da mão-de-obra na agricultura e na construção civil nas zonas fronteiriças tem proveniência haitiana. Os dois países dividem La Hispaniola, a ilha que, antes da chegada de Cristóvão Colombo, era habitada pelos taínos e se chamava Quisqueya, "Mãe de todas as terras". Gradualmente, os espanhóis perderam interesse pela parte ocidental da ilha e, dois séculos depois da colonização, ela foi entregue formalmente à França, que antes tinha vencido o acercamento àquele território juntamente com os holandeses e os ingleses, designadamente. Esta parte da ilha foi batizada de Saint-Domingue, mas no final do século XVIII os nativos revoltaram-se contra o regime napoleónico francês e conquistaram a independência. Assim surgiu o Haiti, em 1804, sendo a mais antiga república negra do mundo, mas absolutamente frágil, economicamente, situação a que não são alheios o corte das florestas autóctones, as tempestades, as enchentes e a devastação por causa do terramoto mais recente. O mercado que visitei do lado do Haiti não era diferente daqueles por onde eu passara nos aglomerados dominicanos mais próximos da fronteira, mas ali não havia um aglomerado urbano nem barracas, apenas bancas com toldos. Mulheres com sacos à cabeça cruzavam os dois lados da fronteira, mas eram predominantes os haitianos que compravam nessas carripanas dominicanas e depois regressavam. Havia de tudo um pouco, nomeadamente camisolas coloridas, de que guardo uma, religiosamente, sem nunca a ter vestido. Ali senti a frase que ouvira na boca de uma haitiana: "Os dominicanos precisam dos haitianos, e os haitianos precisam dos dominicanos." Não fora assim, embora por causas infelizes, o país não teria, em 2010, a consagração de Sarodj Bertin como Miss Universo. Ela nasceu no Haiti, filha de Mireille Durocher e Jean Bertin. A mãe era advogada e crítica do então presidente Jean-Bertrand Aristide, sendo assassinada, a 28 de março de 1995, em Porto Príncipe. Após este bárbaro acontecimento, a família de Sarodj colocou-a na República Dominicana, onde cresceu no exílio e aprendeu espanhol e inglês, além do francês nativo e do crioulo haitiano. Entre 2003 e 2010, estudou Direito, tendo nesse ano concorrido a Miss Haiti, vencendo e repetindo o feito, em Las Vegas, como Miss Universo. Após o terramoto desse ano, a sua conquista internacional fê-la acreditar que competir daria voz ao seu povo de origem. Todos os povos, afinal, precisam de uma voz apolítica que lhes exponha as suas necessidades e os seus caminhos..Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.