O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, garantiu esta quarta-feira, em Kiev que vai continuar "a procurar soluções e uma paz justa para o povo da Ucrânia e do mundo", insistindo que a renovação do acordo que permite a exportação dos cereais ucranianos e de alimentos e fertilizantes russos é de "importância crítica". O presidente ucraniano, Zelensky, defendeu que este acordo é "extremamente necessário" para a segurança alimentar global, mas Moscovo tem exigências para a sua renovação e estas ainda não terão sido alcançadas..Ao abrigo do acordo, que pode expirar já a 18 de março, Kiev pode exportar os cereais armazenados e Moscovo também pode exportar fertilizantes e alimentos. Mas os russos queixam-se de que as sanções internacionais estão a criar obstáculos. Apesar de as sanções europeias e norte-americanas não atingirem o setor alimentar, a Rússia alega que as restrições ao nível do setor bancário e de seguros são um entrave às suas exportações.."A Turquia está a trabalhar arduamente para o prolongamento do acordo dos cereais", disse uma fonte à Al Jazeera, indicando que as negociações continuam. "As preocupações da Rússia, ou melhor as dificuldades que enfrenta, ainda não foram ultrapassadas. Mas a Turquia está a fazer a sua parte para um acordo entre todas as partes", acrescentou. A principal negociadora na área de Comércio da ONU, Rebeca Grynspan, viajou com Guterres para Kiev e tem previsto encontrar-se com altos funcionários russos em Genebra, na próxima semana, para discutir este tema..Desde que foi assinado, em julho de 2022 (foi renovado em novembro), o acordo já permitiu a exportação de 23 milhões de toneladas de cereais que estavam bloqueadas nos portos ucranianos. Contudo, no último mês, as exportações têm diminuído, com as inspeções dos navios - uma das exigências para garantir que não estão a entrar e sair armas - a cair para metade em relação aos números de há alguns meses, criando de novo filas de navios para deixar o Mar Negro e cruzar o Bósforo. Kiev culpou Moscovo pelos atrasos..Pela terceira vez na capital ucraniana desde a invasão, Guterres reiterou que "a posição das Nações Unidas é muito clara: a invasão russa da Ucrânia é uma violação da carta da ONU e da lei internacional. A soberania, independência, unidade e integridade territorial da Ucrânia devem ser mantidas dentro das suas fronteiras reconhecidas internacionalmente"..Na frente de batalha, as atenções continuam a estar centradas em Bakhmut, na região de Donetsk. O Grupo Wagner alegou esta quarta-feira ter capturado a zona oriental da localidade, com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, a avisar que a cidade pode cair "nos próximos dias". Mas, acrescentou, "isso não reflete necessariamente qualquer ponto de viragem na guerra"..Zelensky, numa entrevista à CNN, alegou que a Rússia terá "o caminho aberto" para o leste da Ucrânia se conquistar Bakhmut. "Sabemos que depois de Bakhmut podem ir mais longe. Podem ir até Kramatorsk, podem ir até Sloviansk, os russos teriam o caminho aberto depois de Bakhmut para outras cidades na direção de Donetsk", indicou na entrevista transmitida esta quarta-feira. Isso mesmo deixou claro, ainda na terça-feira, o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu. "Capturar Bakhmut irá permitir outras operações ofensivas nas linhas da Defesa das Forças Armadas da Ucrânia", indicou..O líder dos mercenários do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, revelou nas redes sociais que os seus homens tinham capturado toda a região a leste do rio Bakhmuta. Entretanto, a sua mãe, Violetta Prigozhina, teve uma vitória nos tribunais europeus, que ordenaram o cancelar das sanções que tinham sido impostas pela União Europeia. O argumento é que, mesmo que Prigozhin seja responsável por atos ilegais na Ucrânia, as provas apresentadas contra a sua mãe de 83 anos quando as sanções foram aplicadas no ano passado eram insuficientes. .Esta decisão pode abrir a porta a outras no mesmo sentido, tendo outros russos que foram visados pelo congelamento dos bens e a proibição de viajar, por alegadamente apoiarem a guerra na Ucrânia, já apresentado também recurso. No total, as sanções europeias afetam quase 1700 pessoas ou entidades. Quanto ao próprio Prigozhin, ele alega que não tem razão para contestar as sanções no tribunal, considerando que "neste momento são impostas de forma bastante razoável"..susana.f.salvador@dn.pt