É um novo filão. Os guias de bairro vão povoando o mapa de Lisboa e desvendam cada um deles como se fosse um segredo mais ou menos bem guardado. São pequenas revistas que promovem o comércio tradicional em regiões demarcadas da cidade. Para já são oito Campo de Ourique, Chiado, Baixa, Bairro Alto, Liberdade, Castilho, Avenidas Novas e Telheiras. .Estão em lojas, hotéis, postos de turismo, debaixo do braço de quem passa na rua. Apanham boleia encartados na imprensa nacional. Apesar do carácter comercial, estes guias não são só uma espécie de páginas amarelas em ponto pequeno. Alguns projectos, levam o leitor pela mão num passeio cúmplice pelas ruas calcetadas. Oito bairros de Lisboa combatem assim o marketing aguerrido dos centros comerciais..Maria João Freitas foi quem primeiro se lembrou de tratar o bairro onde nasceu e cresceu - Campo de Ourique - à sua escala. «Procuro o lado humano», sublinha. Talvez por isso, o Campo de Ourique Shopping que chegou àquele bairro com as iluminações de Natal, em 2002, tinha alma. .IDEIA. Licenciada em Filosofia, Maria João Freitas trabalhou dez anos em agências publicitárias como copywriter. Há cinco anos, decidiu aventurar-se por conta própria e criou a Máquina de Escrever, uma microempresa cujo nome diz (quase) tudo. Um dia, foi assaltada em plena rua por ... uma ideia «O bairro é um centro comercial ao livre!». Foi em Outubro. Dois intensos meses depois e o primeiro livrinho surpreendia moradores e (outros) curiosos. .«Vesti a pele de vendedora e saí para a rua», recorda. A princípio «foi estranho» porque os lojistas conheciam-na noutro papel. Além disso, alguns anos antes «alguém tinha prometido um pequeno roteiro de lojas e fugido com o dinheiro», o que não facilitou a tarefa. Feito este levantamento, alinhou os textos que apresentam as lojas. Este ano, o Campo de Ourique Shopping exibe uma luva na capa dizendo que chegou ao número cinco (com edições de Verão pelo caminho). Tem para contar uma mão cheia de histórias. . Há um ano, também a pretexto do Natal, o Chiado recebeu o seu guia. Nos bastidores, «cinco mulheres apaixonadas por Lisboa». Uma delas, Sofia Paiva Raposo, designer gráfica e directora geral dos guias ConVida, falou pela equipa numa sala luminosa da Rua Nova do Almada. «Tomámos há um ano a iniciativa de fazer um guia para o Chiado para ver se havia espaço para este tipo de iniciativas, o que se verificou», conta. A ideia surgiu há três anos quando regressou a Lisboa, depois de viver fora do país, primeiro em Londres, depois em Paris. «Sempre dependi muito dos guias para descobrir as cidades». .Mulheres. Em Maio, surge o Bairro Alto. Este Natal, a Liberdade e a Baixa juntaram-se à família ConVida. Apesar dos quatro guias serem bilingues (português e inglês), «este projecto nasceu sobretudo virado para o lisboeta», sublinha Sofia Paiva Raposo. A ideia é dar a conhecer as lojas e o património de cada bairro e reanimar o comércio tradicional numa cidade «minada pelo síndroma das grandes superfícies». Por exemplo, «a Baixa é uma caverna de Ali Babá, pode-se passar dias a descobrir coisas!», lança..A equipa que ConVida, junta elementos de design gráfico e arquitectura de interiores. Não há ninguém da área da edição nem da área comercial. Por isso foram obrigadas a ser plurifacetadas «vendemos publicidade, fazemos guias de compras, levantamentos de lojas, os mapas, os textos,...». .laços. Mais a norte no mapa da capital, o número zero do Avenidas Novas chegou à Avenida de Roma em Dezembro e promete «voltar a atacar» em Março. .Madalena Avillez, directora geral da Oficina Criativa quer, desta forma, «oxigenar» aquela zona da cidade através de um guia que permita «criar laços». .A edição inaugural deixa ainda muitas lojas de fora porque algumas tinham já as contas fechadas para este tipo de investimento. Mas Anabela Domingos, que calcorreou avenida abaixo e acima apresentando o projecto e angariando publicidade, loja a loja, confia que para o ano vai ser diferente e garante determinada «Queremos marcar o ritmo das compras.»