Guerra contra deus

"Corrupção na terra", "guerra contra deus". Os crimes pelos quais a teocracia iraniana condena à morte quem a quer derrubar fazem ricochete na muralha de mártires que lhe denuncia a blasfémia: não há quem melhor represente a corrupção na terra que quem se arroga mandar e matar em nome de deus.
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"Não te preocupes, meu amor. Daqui a duas semanas isto acabou e saio da prisão."

O tuite, com três dias, reproduz uma conversa telefónica entre o iraniano Mahan Sadrat e a sua namorada. Um vídeo com imagens dele, o rosto liso sorridente de um miúdo feliz, trespassa o coração de quem lê essas palavras que podem ser as últimas entre os dois: Mahan foi condenado à morte e a sua execução é considerada iminente pelas organizações de defesa dos direitos humanos.

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O nome de Mahan está na mesma lista que os de Mohsen Shekari, também de 23 anos, que a ONU identifica como "artista", executado na quinta-feira, e de Majidreza Rahnavard, que terá a mesma idade, enforcado na manhã desta segunda-feira.

No Twitter e em outras redes sociais, as contas que apoiam os protestos, como a 1500tasvir, mostram os rostos destes rapazes e de outros como eles condenados à morte. O mesmo fazem a Amnistia Internacional e outras organizações de defesa dos direitos humanos - tentam dar cara, espessura, existência, urgência, a estes nomes de pessoas que nos dizem que morreram ou vão morrer, pessoas que nunca tiveram a menor chance de defesa num regime que se sente acossado e que vê a sua única salvação no terror.

Rahmavard, que trabalharia numa loja de fruta, foi detido a 19 de novembro e menos de um mês depois já fora julgado, condenado e executado, por ter alegadamente matado dois membros das forças de segurança.

Shekari, detido no início dos protestos, a 25 de setembro, teria ferido um paramilitar afeto ao regime e bloqueado uma rua em Teerão.

Entre os motivos destas condenações, dizem-nos as informações divulgadas pelos ativistas e organizações como a ONU e a Amnistia, está a acusação de "inimizade a deus", ou "guerra contra deus" - um crime capital no Irão e na Arábia Saudita e para o qual uma das punições tradicionais previstas pela lei islâmica é a crucificação.

Pode aplicar-se a uma multiplicidade de crimes de sangue e a outros crimes "comuns" como a violação, mas também a crimes políticos - porque, pelos vistos, guerrear contra deus é o mesmo que guerrear contra o Estado, e guerrear contra o Estado pode ser apenas participar em protestos, queimar caixotes de lixo, barricar ruas, ou até publicar posts contra os teocratas.

É esse o caso de Saman Yasin, um rapper curdo de 27 anos igualmente acusado de "guerra contra deus" por anunciar nas redes sociais o seu apoio ao movimento de protesto: preso no início de outubro, foi condenado à morte na quinta-feira pela secção 15 do Tribunal Revolucionário de Teerão. A família diz que não teve direito a advogado e que apresenta sinais de tortura.

Não é aliás a primeira vez que participantes em protestos, mesmo que pacíficos, contra o governo iraniano são condenados à morte por esse mesmo crime: aquando do "movimento verde", em 2009, houve várias condenações semelhantes, depois de o "supremo líder" Ali Khamenei ter ordenado às autoridades que protegessem o "sistema islâmico" e de estas terem interpretado o comando como querendo dizer que quem se opunha ao governo ou ao líder religioso estava em "guerra com deus".

A maioria dessas condenações, porém, acabaram por ser comutadas. Como foi o caso com o professor de literatura Abdolreza Ghanbari, preso em dezembro de 2009 e condenado à morte, mas cuja sentença foi alterada em 2013, sendo libertado em 2016.

Essa relativa leniência não é porém expectável agora - a rapidez sanguinária das execuções dos detidos nos atuais protestos visa desmoralizar os que, na sequência da morte, a meio de setembro, de uma jovem de 21 anos, Mahsa Amini, sob custódia da "polícia da moralidade", há quase três meses enchem as ruas do país a exigir o fim da teocracia.

Nos seus quase 44 anos de existência, o regime dos ayatollahs nunca enfrentou uma oposição tão persistente e tão grandiosos protestos. Nunca se viu perante tanta capacidade de martírio. A crueldade com que tenta dominar a rebelião, permitindo que centenas de manifestantes, incluindo crianças, sejam assassinados, e decretando estas execuções, é paradoxalmente sinal da sua fraqueza e desnorte.

O nome do crime pelo qual decretam a morte de quem se lhes opõe significa que, mais do que autoproclamar-se voz e espada de deus, os clérigos assumem-se, e ao seu governo, como a própria divindade.

Não sendo religiosa, suponho que na perspetiva das religiões não há maior blasfémia e pecado que a de alguém confundir-se com deus. E mais ainda quando nessa qualidade pretende fulminar todo um povo.

De resto, entre os clérigos islâmicos iranianos há quem - desde 2010 pelo menos - ponha em causa essa interpretação que os tribunais estão a usar para condenar os manifestantes à morte.

Ayatollahs considerados "oposicionistas" exararam já fatwas a certificar que participar em manifestações e protestos contra o regime não pode ser visto como "fazer guerra a deus", e que é até obrigatório que os muçulmanos se oponham à injustiça; chegaram a dizer que era do lado de quem oprimia que estava o crime.

Também entre os religiosos conservadores houve reações de desagrado a tais sentenças. Exemplo do "grande ayatollah" Naser Makarem Shirazi, que negou ter alguma vez dito que quem protestava nas ruas merecia a morte, e acusou "algumas pessoas" de "usar esta e outras táticas para enfraquecer o instituto das referências religiosas". Shirazi, hoje com 95 anos, não é parvo: terá noção de que tanta atrocidade e tirania só pode ter como resultado descredibilizar os mullahs.

Mas, como se constata, 12 anos depois a acusação de "guerra contra deus" volta a ser usada para executar quem protesta.

O terrível grito da mãe de Mohsen Shekari ao saber da morte do filho, partilhado nas redes na quinta-feira, demonstra que pouco importa haver no Irão clérigos com interpretações benignas, ou menos malvadas, dos textos sagrados: ninguém o salvou.

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Evidenciando o que há de mais monstruoso nas religiões e na sua mistura com política, o regime dos mullahs pode ser também visto como prova ou da inexistência de deus - como permitiria tais barbaridades em seu nome? - ou da sua natureza malévola. Sem dúvida que não há mais portentosa guerra contra deus que essa.

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