Perto de meia-noite, um grupo de seis índios da tribo Guajajara, com seus rostos pintados para combate, ouve o barulho de caminhões pesados a cerca de 30 quilómetros de sua aldeia na floresta amazónica..Eles suspeitam de uma caravana ilegal de madeireiros para corte de árvores em sua reserva. A polícia não está a caminho, mas os nativos têm um plano para revidar..Os "guardiões da floresta", como se autodenominam, correm para um ponto-chave no emaranhado de estradas de terra esburacadas e ficam à espera, armados com rifles e revólveres. À medida que os caminhões se aproximam, os índios se preparam para fazer uma emboscada, prender os madeireiros e entregar os invasores e seus equipamentos à delegacia mais próxima, a centenas de quilómetros..Os homens dizem que estão entre os 180 guardiões que patrulham e protegem sua terra indígena contra madeireiros em ações noturnas..De dia, a maioria dos guardiões cultiva mandioca, arroz e outros produtos na Terra Indígena Arariboia, uma região florestal húmida de cerca de 413 mil hectares no nordeste do Maranhão, um estado que perdeu a maioria de sua floresta tropical ao longo do século passado..Madeireiros e fazendeiros vêm desmatando as terras até a reserva Guajajara e cruzando a fronteira cada vez mais nas últimas décadas. No entanto, desde 2012, quando os "guardiões da floresta" se constituíram, estima-se que as incursões ilegais tenham se reduzido à metade.."Eu estou orgulhoso de os guerreiros continuarem a luta, porque nossa terra era considerada como perdida", disse Laercio Guajajara, um dos coordenadores do grupo. "Mas estamos mostrando para o mundo, para o país que nossa terra tem dono e não é perdida.".Iniciativas de grupos de vigilantes como os guardiões chamaram a atenção neste ano diante da crescente devastação da Amazónia, a maior floresta tropical do mundo..Nos sete primeiros meses de 2019, o desmatamento da floresta amazónica aumentou cerca de 67% em relação ao ano passado, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe)..Os incêndios na Amazónia, que normalmente ocorrem após o desmatamento, também cresceram cerca de 50% neste ano, de acordo com dados do governo, desencadeando uma reação global em resposta à política ambiental do governo do presidente Jair Bolsonaro..O presidente tem declarado que as reservas indígenas brasileiras são muito extensas. Ele defende a exploração mineral e agrícola nas regiões, além de ter enfraquecido o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de acordo com funcionários da autarquia federal..Os guardiões do território Guajajara dizem que reforçaram suas convicções de que o destino de sua terra está em suas mãos.."Quem deveria fazer o trabalho de fiscalização e proteção das terras indígenas não faz", disse Olimpio Guajajara, um líder dos guardiões. "Eu tenho a missão de ter de proteger as terras.".Um porta-voz do Ibama disse à Reuters em agosto que governos anteriores eram responsáveis pelos desafios enfrentados pelo instituto. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que cumpre seu papel de proteger a floresta, comprometendo-se a combater a atividade criminosa. O Ibama não respondeu a um pedido por comentários sobre a luta Guajajara contra madeireiros. Polícias locais reconheceram o trabalho dos guardiões em sinalizar atividades ilegais e apresentar evidências. No entanto, as autoridades dizem que essa forma de justiça não é o melhor método para lidar com o problema..Alguns guardiões foram mortos por madeireiros, disseram indígenas à Reuters, e muitos cobrem o rosto durante as operações para evitar se tornarem alvos. Os indígenas não recebem compensação pelo trabalho arriscado e cansativo de investigação, e gastam parte de sua escassa renda em munição, gasolina e manutenção de veículos..Enquanto os guardiões ficam à espreita, permanecem em silêncio e sob tensão até perceberem qualquer sinal da aproximação dos madeireiros..Cercado pelos guardiões, um invasor rapidamente se rende e confessa que três caminhões carregados de madeira ilegal estão a caminho..Quando os veículos chegam, os guardiões bloqueiam a estrada com uma camioneta própria. Os madeireiros realizam disparos contra os indígenas, que revidam. Os invasores fogem para a mata..Sem espaço para levar o homem capturado para a polícia, os guardiões deixam-no na floresta para ser resgatado por seus colegas..Após não conseguir dar a partida nos caminhões apreendidos, o grupo de indígenas queima os veículos para garantir que não serão usados novamente.."A gente já pediu para eles irem embora, e eles nunca foram", disse Laercio.Em resposta às invasões, os guardiões também atearam fogo nas instalações habitadas pelos madeireiros no meio da floresta.."Se eles não forem embora, na próxima vez que a gente vier aqui, nós vamos levá-los amarrados também ou, quem sabe, a gente vai matá-los aqui, porque não dá mais para a gente aguentar o que eles fazem aqui dentro do território."