A Administração Pública prepara-se para entrar em greve esta sexta-feira para exigir que o Governo vá além daquilo que apresentou na proposta de Orçamento do Estado para 2024, mas só com os sindicatos afetos à CGTP a integrar o protesto. Em cima da mesa está o pedido de "valorização salarial, a revogação do sistema de avaliação, a valorização das carreiras e o reforço dos serviços públicos", confirmou ao DN o coordenador da Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, Sebastião Santana. Por seu lado, o líder da Federação de Sindicatos da Administração Pública (Fesap), José Abraão, não vai sair à rua, preferindo centrar-se em negociações com o executivo liderado pelo primeiro-ministro, António Costa..Esta será uma greve convocada apenas pela Frente Comum, da CGTP. A UGT ficou de fora - e entre as duas centrais não houve a mais pequena tentativa de enveredar por uma ação conjugada. Dentro da UGT, a estrutura mais representativa dos funcionários públicos, com 34 sindicatos associados, é a Fesap. O seu líder, José Abraão, sublinhou ao DN que "há razões para continuar a negociar" aumentos salariais em vez de se ir para a greve. O que se passa, acrescentou, é que em outubro de 2022 a UGT subscreveu com o Governo - e a CGTP não - o "Acordo Plurianual de Valorização dos Trabalhadores da Administração Pública". E portanto o que interessa é "manter o compromisso" assinado em vez de alinhar em ruturas, que é o que uma greve supõe. "Não temos nada contra a greve. Quem quiser que a faça, nada contra. Mas para nós o tempo é de negociação"..Portanto, "antes um pássaro na mão do que dois a voar", que é como quem diz, antes estes aumentos (os previstos no OE2024), "que até são superiores à inflação" prevista para o próximo ano, do que ambições salariais irrealizáveis. Ou, dito de outra forma: "A Fesap está sempre disposta à luta e ao protesto. Se for necessário, avançaremos. Queremos sempre mais. Os aumentos são insuficientes? São! Mas agora é hora de cumprir os acordos e o Governo está a cumprir.".Para Sebastião Santana, a proposta do Governo em subir os salários da Função Pública em "52,11 euros, até que isto represente 3% dos salários dos trabalhadores", é "miserabilista". De acordo com as contas do dirigente sindical, o Governo tem margem para acompanhar a proposta da Frente Comum, que inclui uma subida nos salários dos trabalhadores de 150 euros. "O mesmo Governo que diz que não tem dinheiro para aumentar salários e reforçava que a verba para esta medida dos 52 euros e 3% são 847 milhões de euros é o mesmo Governo que pega numa rubrica que se chama aquisição de serviços externos, que tinha 13 mil milhões de euros no ano passado e que para 2024 cresceu 1 100 milhões de euros", critica..O que justifica este pedido são as consequências da inflação. "Num quadro em que perdemos, entre abril do ano que passou e abril deste ano, 5,1% do poder de compra, grande parte dos trabalhadores vai continuar a perder poder de compra se tivermos em conta apenas este período", destaca o líder da Frente Comum. "Se formos fazer as contas desde 2009 até 2023, nós já perdemos todos o que equivale a 20% do nosso salário, em termos de poder de compra", expõe Sebastião Santana..O coordenador da Frente Comum propõe que as reivindicações da federação sindical que representa sejam pagas através do excedente dos lucros, entre bancos e empresas. "Isto não é uma questão de haver dinheiro ou de não haver dinheiro", justifica Sebastião Santana, acrescentando que, só na poupança na aquisição de serviços externos, "o Governo já ia buscar dinheiro suficiente, juntando ao que já lá pôs, para satisfazer parte da reivindicação dos trabalhadores, e já agora repor justiça e diferenças salariais entre os diversos níveis da Administração Pública. Podíamos somar a isto os 1 600 milhões de euros que vão ser dados de benefícios fiscais em sede de IRC às empresas em Portugal. Recordo que as empresas que beneficiam destes descontos no IRC não são as que precisam de apoios, são as grandes empresas, em que o conjunto das 20 maiores lucram 11 milhões de euros por dia", sublinha. Perante este número, o dirigente sindical garante que, quando o Governo diz que não há possibilidade de acompanhar estas reivindicações, "pura e simplesmente não é verdade. É uma opção política que o Governo está a fazer vai sair cara aos trabalhadores da Administração Pública", adverte..Sobre o que está em causa com esta greve, prevista para amanhã, Sebastião Santana explica o papel dos trabalhadores do Estado. "Asseguramos o funcionamento de serviços públicos, como escolas, tribunais, hospitais, recolhas de resíduos, por aí fora, e o que o Governo está a criar é condições para esvaziar estes serviços", porque, considera, a atratividade de trabalhar nas Administrações Públicas é cada vez menor. "Qual é o trabalhador que quer ir ganhar o salário mínimo e ir trabalhar como assistente operacional, por exemplo, para uma urgência dum hospital, ou qual é que é o enfermeiro recém-formado que prefere ficar no Serviço Nacional de Saúde em vez de ir para um privado onde lhe pagam mais", questiona o representante do setor, recordando também que o mesmo princípio se aplica a médicos e técnico de diagnóstico..Com a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) e os seus sindicatos - quase todos membros da Frente Comum - a juntar-se ao protesto, Sebastião Santana assinala "as dificuldades que existem na carreira docente em recrutar e até mesmo em preencher vagas", o que, defende, "é uma evidência daquilo que é a degradação das carreiras, que vai ter um impacto gritante na Administração Pública. Portanto, mais do que estarmos a lutar pelos nossos interesses individuais, que não deixamos de o fazer, estamos também a lutar pelo reforço dos serviços públicos e por uma Administração Pública ao serviço das populações e não espartilhada de capacidade de o fazer", assume o líder da Frente Comum..Outra das reivindicações apresentadas ao Governo pela federação sindical é a "simples revogação" do Sistema Integrado de Avaliação de Desempenho da Administração Pública (SIADAP), para "que todos os trabalhadores do Estado tenham a perspetiva de chegar ao topo das suas carreiras e que isso aconteça num prazo nunca superior a 40 anos". Nos termos atuais, "em algumas carreiras, são precisos 120, 130 anos de trabalho para se chegar ao topo", conclui Sebastião Santana..vitor.cordeiro@dn.pt