Governar a incerteza

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As crises do nosso tempo chovem no molhado: Mal refeitos da troika, caiu-nos em cima a pandemia; e enquanto sonhávamos com a bazuca, acordámos com uma guerra. A economia portuguesa enfrenta agora um novo desafio, com forte impacto nos próximos meses. O aumento dos preços da energia, combustíveis, matérias-primas, cereais e fertilizantes, como sequela da guerra na Ucrânia, ameaça reduzir o poder de compra das famílias e a competitividade de muitas empresas. O resultado não pode ser bom: a desaceleração do consumo e do investimento encolhem as expectativas de recuperação pós-pandemia e, por consequência, o crescimento e a criação de emprego.

O plano de medidas imediatas, aprovadas na semana passada em Conselho de Ministros, procura responder à urgência contra os efeitos nocivos já muito palpáveis ​​na carteira da cidadania. Mas é um plano provisório, de fim à vista, destinado a aliviar os efeitos sociais e de consumo, apoiar os setores mais gravemente afetados e mitigar os efeitos da guerra na nossa economia, com especial incidência nos preços da energia. Isto, enquanto o Parlamento debate o Orçamento do Estado onde a principal incógnita é o comportamento da inflação, esse efeito perverso que corrói o poder de compra dos salários, como se tratasse de um imposto mascarado.

Com quatro anos e meio pela frente, se não houver incidentes de percurso, o novo Governo de António Costa tem diante de si, por agora, o triplo desafio de conter a deterioração económica e evitar a espiral inflacionária, atender aos setores sociais mais vulneráveis, e avançar na transição energética, única opção de longo prazo para garantir que não se tornam crónicas as razões da atual crise.

Estamos em guerra e é suposto esperarmos que a liderança corresponda, que esteja à altura deste tempo: ambiciosa nos objetivos e corajosa nas reformas, evitando a tentação de tomar medidas paliativas, de menor custo, mas logo insuficientes ao fim de poucos meses. Se em 2020, perante a pandemia, a resposta foi satisfatória para orientar as expectativas dos agentes económicos e evitar um colapso social, não se espera agora menos que vistas largas. À escala portuguesa e europeia, a situação atual, em termos económicos, é muito mais complexa. Se as medidas de política económica forem reconhecidas como tímidas ou modestas, não surtirão efeito e a deterioração vai acentuar-se.

Pela segunda vez em seis anos, cabe a António Costa governar em incerteza. Acontece que a amplitude de visão não depende apenas do Governo, por mais confortável que seja a sua maioria parlamentar. Das oposições espera-se que procurem provar a sua estatura política e o seu compromisso com o país, evitando a tentação do quanto pior, melhor, ou de quererem recuperar na rua o que perderam em eleições. O mesmo se espera dos diferentes parceiros sociais, tão decisivos na crise sanitária e na sua recuperação: governo, sindicatos e confederações patronais não podem renunciar à sua responsabilidade urgente de negociar um pacto de rendimentos justo, sólido e de longo alcance. Este duplo acordo, político e social, é, nestas circunstâncias, um imperativo económico, político e também moral, se pensarmos que a geração dos nossos filhos ainda não conheceu, para além das crises, melhores horizontes de vida no país onde a pobreza ameaça mais de um quinto da população e onde a economia marca passo entre os retardatários da Europa. Diz-se que em tempos de paz se administra e em tempos de guerra se lidera. Este é o tempo de - governo, oposições e parceiros sociais - estarem à altura do melhor de si mesmos. E já não vão cedo.


Jornalista

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