Pôr a modelo brasileira Giselle Bündchen na capa da Vogue é garantir que a revista vai esgotar em pouco tempo. Fotografá-la de costas, apenas com a parte de baixo de um cavado biquíni é garantir que a revista vai dar que falar. Foi o que aconteceu com a edição francesa de junho/julho da revista. Uma brasileira, um rabo brasileiro - os mais famosos rabos do mundo - na capa da mais importante e elitista revista de moda... Isto quer dizer que algo está a mudar. E está. Os glúteos estão outra vez na moda. Seja porque foram trazidos pela nostalgia revivalista dos anos 1950, das mulheres retratadas na série Mad Men, de corpo de ampulheta e traseiro generoso, pela mania do fitness, ou pela afirmação da multiculturalidade que coloca mulheres de etnias onde o rabo é um bem precioso, o que é certo é que estamos .a viver o regresso do traseiro bem torneado e firme. Ou tonificado, como agora se diz. O verdadeiro bumbum. Ou bunda, que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade imortalizou: «Esferas harmoniosas sobre o caos, / A bunda é a bunda /, redunda.» .Mais a sério, em Inglaterra, cientistas da Universidade Metropolitana de Manchester tentaram estabelecer uma fórmula matemática para definir o rabo perfeito. «O rabo perfeito é firme ao toque e tem uma resiliência que previne que trema, e, no entanto, parece suave e tem uma pele perfeita», explica David Holmes, um professor de Psicologia na Universidade. .A fórmula inclui forma, circularidade, balanço, firmeza, consistência, e, mais importante, o rácio entre o tamanho da cintura e das ancas. A portadora do melhor rabo, segundo esta fórmula, era a cantora australiana Kylie Minogue, uma das pioneiras na reabilitação de um bom traseiro. .A tendência impôs-se e deixou para trás as escanzeladas dos anos 1980 e 90, dando primazia a mulheres de curvas generosas como Kim Kardashian, Eva Mendes, Beyonce, Shakira, Kate Winslet ou Scarlett Johansson, culminando na dona do traseiro mais caro do mundo, Jennifer Lopez, cujo seguro ronda os trezentos milhões de dólares. Todas elas são herdeiras directas das pin ups dos anos 1940 e das atrizes dos anos 1950. Há uma longa tradição de rabos famosos que passa por Mae West, Marilyn ou Jane Mansfield e culmina em Brigitte Bardot, a última das francesas a usar o rabo como um ativo na sua carreira - lembram-se da cena «e tu, gostas do meu rabo?», no filme Desprezo, de Jean Luc Godard, em 1963 - antes de a moda pós-feminista se ter imposto, definitivamente, nos anos 1970, diabolizando o rabo e atribuindo-lhe o papel vil de apoucar a mulher na sociedade - por ter em conta apenas a sua sexualidade-, sendo a sua omissão um sinal libertador. .Longe vão esses tempos. Recentemente, a editora Taschen lançou O Grande Livro dos Rabos com fotografias e histórias daqueles para quem a zona dos glúteos desempenhou um papel fundamental na carreira. Foi o caso do ilustrador americano Robert Crumb ou do realizador italiano Tinto Brass. No mesmo livro figuram ainda depoimentos de modelos cujos rabos são verdadeiros instrumentos de trabalho, como as modelos americanas Bufie e Coco, a brasileira Mulher Melancia ou a estrela do porno masculino John Stagliano, mais conhecido como The Buttman. .Rabos, rabos e mais rabos. Estão em todo o lado, nestes dias de verão. A treinadora pessoal Rita Matias explica que, na sua experiência de 12 anos, setenta por cento das pessoas iniciam a prática de exercício físico na primavera, «e a grande maioria são mulheres». A zona dos glúteos é precisamente uma das que mais preocupações dão. «É das zonas do corpo que mais gordura acumulam, devido a estarmos "programadas" para a reprodução.» Pela internet .proliferam as técnicas de fitness para obter os glúteos perfeitos, com vídeos no YouTube e lições de ginástica vendidas online anunciando professores que prometem um «rabo à brasileira» em três meses - e isso parece ser um elogio. Se não fosse, não havia tanta gente a tentar obtê-lo. Os dados da Associação Internacional de Cirurgia Estética mostram que nos últimos anos se tem assistido, no mundo ocidental, a um aumento considerável do número de gluteoplastias, a cirurgia estética usada para aumentar artificialmente o volume das nádegas e dar-lhes mais firmeza. É o que acontece no consultório de um dos mais famosos cirurgiões plásticos portugueses, Francisco Ibérico Nogueira. «O conceito de beleza globalizou-se. Em Portugal as mulheres não se preocupam só com o aumento da mama mas também com o aumento da região glútea», diz o cirugião. «Tudo isto é reflexo daquilo que as pessoas subconscientemente vão absorvendo como ideia de beleza, e que acaba por se tornar um bocado universal.» E, definitivamente, «a tendência é acabar com aquele tipo de mulher anorética», sendo que «o que está a acontecer é que estão a regressar as mulheres com curvas: com a cintura marcada, delgada, com seios generosos e curvas na linha nadegueira, com curvas marcadas e nádegas com alguma projeção de volume», diz, em linguagem técnica, o cirurgião. .Na Escócia, a Heriot-Watt University of Edinburgh começou a elaborar o primeiro estudo da História da Moda que tem como objetivo encontrar as calças que mais realcem o rabo. Algo que, segundo fonte oficial da Salsa, poderá ser tão subjetivo quanto cada corpo. «O traseiro perfeito é aquele com o qual o cliente se sente confiante. Cada era, cultura ou pessoa perpetuam novos conceitos muito singulares de beleza mas, na essência, muito se resume ao bem-estar e à confiança individuais», diz a marca portuguesa que se especializou em jeans que realçam o rabo. «A tendência atual aponta para o revivalismo das curvas.» Confirma-se a moda. Na marca de jeans portugueses isto significa, em linguagem comercial, modelo Push- Up com o intuito de realçar o traseiro feminino e outros jeans com efeito modelador, como as Push-In ou as Sculpture, que delineiam e definem determinadas partes do corpo feminino de um modo mais suave. Certo é que as calças da Salsa já se tornaram, em Portugal, conversa certa entre quem fala de «rabo perfeito». Também a italiana Benetton achou que era comercialmente interessante introduzir este ano no me rcado um modelo dedicado ao traseiro. .Um rabo bem torneado foi, desde sempre, um dos maiores atrativos da mulher. Não é de hoje, como já se viu. Um dos primeiros momentos de esplendor do rabo foi o da veneração da deusa grega Afrodite Calipigia, a deusa das nádegas bonitas, literalmente, em cuja honra se construiu um templo e uma estátua - nesta, a deusa espreita o seu rabo por cima do ombro. .Das Vénus gregas passando pelas maravilhosas e musculadas representações artísticas de Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci, o rabo marcou toda a história da arte e da nossa civilização. Uma professora da Universidade de Bremen, Ingelore .Ebberfeld, realizou um estudo chamado «O erotismo das nádegas», depois de ter lido que Jennifer Lopez tinha feito o tal seguro astronómico para o seu rabo. O estudo realça que ao mesmo tempo que funciona como um «extraordinário estímulo sexual», o rabo tem sido glorificado ao longo do tempo nas mais variadas formas de arte: a Vénus de Willendorf, de Botero, a Vénus do Espelho, de Velasquéz, As Três Graças, pormenor de A Primavera, de Botticelli, são alguns exemplos. .Um estudo realizado pela Universidade de Wellington, e citado pelo Daily Mail, revelou há poucos meses que 47 por cento dos homens fixam o seu primeiro olhar no peito das mulheres, enquanto cerca de trinta por cento olham primeiro para o rabo e as ancas. Apenas vinte por cento dirigem o seu olhar para o rosto, num primeiro contacto. Antropologicamente, é até fácil explicar a importância do rabo. Rui Costa, biólogo, explica à Notícias Magazine que o encanto pela região glútea está associado, por exemplo, a hormonas e a feromonas. «Os machos são atraídos por odores. Associamos essa zona a odores que são agradáveis para nós e é também uma zona associada ao prazer. Isso pode tornar-se apelativo para os machos da nossa espécie». .É por isso que, muitas vezes, um rabo maior e ancas mais largas estão associados a uma imagem de fertilidade. Mas, salienta o especialista, esta é claramente uma daquelas situações clássicas de duplo constrangimento. O «culto do rabo» é também muito influenciado pela cultura. «Sempre que nos querem impingir um produto, ele aparece apresentado por mulheres com corpos esculturais.» O rabo, sendo redondo, «é uma zona bonita, que dá vontade de agar rar, que é erógena e agradável ao to que». .Pode parecer uma tautologia, mas a verdade é que tudo isto é bem humano. Aliás, pré-humano. O rabo nem sempre existiu. Foi só a partir do momento que o homem se pôs de pé, há três ou quatro milhões de anos, que a parte superior dos seus membros traseiros ganhou essa protuberância, segundo o maior especialista em nádegas, Jean Luc Hennig, autor de Breve História das Nádegas. Por outro lado, foi este movimento que deu liberdade às mãos e permitiu o desenvolvimento do cérebro. .Nos símios, as nádegas de muitas espécies incham sempre que uma fêmea se aproxima da ovulação. Como diz Desmond Morris em A Mulher Nua, os humanos são diferentes. «As nádegas mantêm-se sempre protuberantes. Em concordância, a disponibilidade sexual é permanente.» .Sexo e nádegas, a ligação é antropológica: é sempre preciso não esquecer que somos descendentes de seres que andavam em quatro patas e que abordavam sexualmente os seus parceiros por detrás. .O caso do rabo masculino.Cristiano Ronaldo, Beckham ou Rafael Nadal já expuseram os seus traseiros para a marca de lingerie de Giorgio Armani. É fenómeno recente, mas o rabo masculino também passou a estar na moda. Não há explicação óbvia para esta tendência, a não ser a comercial: um rabo masculino atrai não só o mercado - crescente e cada vez mais descomplexado - feminino, mas também, e até de forma sub-reptícia, o mercado homossexual que é cada vez maior e se torna um setor prioritário para as campanhas publicitárias, sobretudo na área da moda. .Como criar a perfeição traseira.Margarida Marques de Almeida e Cátia Dias criaram a Style It Up, uma empresa de consultoria de imagem, também para ajudarem as mulheres a encontrar os modelos e estilos adequados a cada tipo de corpo, e que tirem o melhor partido das curvas. As dos glúteos inclusive. «A roupa pode ajudar a criar o efeito visual que mais nos agrada», explicam as duas profissionais. Neste caso específico, «ao contrário do que a grande maioria das mulheres pensa, os bolsos pequenos nos jeans tendem a aumentar visualmente o rabo. Quanto menores forem os bolsos traseiros, maior vai parecer a zona do rabo.» Conselhos que a designer Adriana Silva, cliente da casa, agradece, admitindo que «a partir dos 30 é mais difícil mantê-lo firme». As donas da Style It Up garantem que não há problema que não tenha solução e deixam as dicas. «Para quem se preocupa em disfarçar esta zona são de evitar cores fortes (que chamam a atenção), pormenores na parte de trás das calças (botões, estampados ou aplicações) - quanto mais simples for o modelo, melhor», revelam Cátia e Margarida. «As calças que mais favorecem quem pretende disfarçar o rabo são as de modelo flare ou a direito, que criam um equilíbrio na silhueta e, preferencialmente, cores escuras e mate» [ver caixas]. Mas «se o objetivo é aumentar visualmente esta zona, existem já alguns modelos push-up, que ajudam a realçar o rabo. As calças com padrão (muito em voga agora nesta estação, em especial com padrões florais) também são uma boa opção, assim como qualquer pormenor na parte de trás das calças», revelam as especialistas da Style It Up. .Verão sem marcas.O verão acrescenta uma nova variável ao problema: o calor pede praia e praia pede pouca roupa. O que significa que é preciso também controlar o bronze. «As marcas de biquíni normal ficam um desastre», garante a engenheira Joana Cabral, que aconselha um bronzeado com marca de tanga, para um efeito mais bonito. Mas poderá haver ainda uma solução melhor. No final de 2009 a marca inglesa Kiniki lançou uma nova linha de praia - biquínis, calções de banho e fatos de banho - que promete um bronzeado completo e sem marcas. .A garantia é dada pela utilização de um novo material, o Transol, na confeção dos produtos, que permite que oitenta por cento dos raios solares entrem na pele apesar de esta estar coberta. O tecido é composto por milhares de buracos microscópicos que permitem que os raios passem e atinjam toda a pele. Quando visto em contraluz, o material é transparente, mas os estampados coloridos, em contacto com o corpo, tornam as peças iguais a qualquer outro biquíni comum. Um truque que confunde o olho e que retira às praias de nudismo o exclusivo de um bronzeado integral. No entanto, os especialistas avisam que é preciso ter cuidado redobrado se se optar pelos produtos da Kiniki..É que muitas pessoas tendem a distrair-se e não passam protetor solar nas zonas tapadas, esquecendo-se de que o Transol não protege contra os raios solares nocivos. Para além disso, esta opção torna também mais difícil reforçar a proteção solar após um mergulho, por exemplo.