Glória aos vencedores, honra aos vencidos

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Nos dias que antecederam o último dérbi da época, o mundo dos comentadores desportivos andou entretido a discorrer sobre se o Benfica faria, em casa, "guarda de honra" ao novo campeão, o Sporting.

Dos lados da Luz, apareceu logo um vice-presidente a dizer que nem pensar, que guarda de honra só para o presidente e nada mais, que o Sporting não esperasse tal coisa.

De Alvalade, sábio, Rúben Amorim desvalorizou. Que ninguém pensasse que o Sporting iria festejar à Luz, que a festa já tinha sido feita e que já eram campeões. Nada de cabelos pintados de verde ou outras formas de celebrar.

A questão da "guarda de honra", parecendo que não, parecendo que não é importante, que é apenas um detalhe, que não tem interesse e que nem merece discussão é, na verdade. muito mais importante do que parece. E a forma como foi discutida também merece reflexão, porque o diabo está nos detalhes, os símbolos e os gestos simbólicos contam e são, aliás, o que mantém uma certa convivência social e representativa.

A guarda de honra seria, neste caso, a equipa do Benfica alinhar-se em campo, com duas fileiras de jogadores, e a equipa do Sporting entrar no relvado pelo meio desse túnel, recebendo aplausos por ter sido campeã.

Simples.

Nada é mais reconfortante do que atletas - ou outros profissionais - serem reconhecidos pelos seus pares. Porque são oficiais do mesmo ofício, porque lutaram dentro do campo, todos, uns e outros, por vitórias, por superação, por regularidade. Chegar ao fim de um campeonato e aplaudir quem o ganhou nem deveria sequer merecer discussão. Devia ser a regra, devia ser o óbvio, devia ser cortesia, reconhecimento e tributo. Assim, simples, sem anátemas.

Os valores do desporto - competição (e não guerra), superação, amizade, respeito, solidariedade - não perdem a validade e não deveriam estar à venda.

O que acontece é que o futebol deixou há muito de ser um desporto para se tornar numa indústria e num negócio. E os dirigentes, adeptos e fanáticos dos clubes perderam, há muito, o sentido do desporto, da competição aberta, da rivalidade saudável. E transformaram o futebol profissional numa guerra, numa luta de poder e de dinheiro, num espetáculo de ódios e destruição.

Se o campeão nacional fosse jogar com um clube "não grande", tenho a certeza - e já aconteceu diversas vezes - que a questão da "guarda de honra" não se colocava. Acontecia naturalmente.

Só quem está interessado em alimentar guerras entre clubes continua a chamar aos adversários "rivais" ou "inimigos". Se as vitórias fossem apenas a "feijões", e o futebol não fosse um negócio, talvez a forma de olhar para os adversários fosse diferente, talvez o reconhecimento de quem ganha tivesse direito a aplauso e tributo, espontâneo e honesto.

Como o futebol é o espelho da sociedade, e a sociedade está cada vez mais competitiva, violenta, pouco solidária e intolerante, não espanta que se discuta "a guarda de honra". E que não seja feita.
E que esse tributo a quem ganha seja escamoteado por quem perde.

No fim de um jogo, tal como no fim de um campeonato, estamos mais ou menos felizes, mais ou menos satisfeitos, conforme os resultados.

Óbvio.

Mas não dar de livre vontade a glória a quem a merece, por causa da cor do equipamento, é a antítese do desporto, da boa convivência, do justo reconhecimento do vencedor.

E esses protagonistas, sobretudo dirigentes, que ganham milhões à custa do que acontece dentro dos relvados nem sequer percebem a lição errada que dão a um país inteiro, aos jovens da formação que olham os "adultos" como ídolos e o mau exemplo à sociedade em geral.

Como dizia o meu pai: glória aos vencedores, honra aos vencidos.

Não é difícil.

Jornalista

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