Aterrei no território georgiano, onde, curiosamente, houve antigamente um reino designado "Ibéria", durante os séculos IV a.C. e V a.C., que correspondia a parte da atual República da Geórgia. A similaridade do termo "Ibéria" para a Península Ibérica e para a região do Cáucaso sempre suscitou a ideia de alguma relação de parentesco antiga entre os povos ditos "Iberos". Esta teoria da origem próxima comum terá sido bem aceite na Geórgia medieval, tendo-se o escritor Giorgi Mthatzmindeli referido a alguns nobres georgianos que teriam pretendido viajar até ao extremo sudoeste da Europa. Volvidos tantos séculos e em sentido contrário, viajei até ao Cáucaso, para que na Geórgia seguisse para uma das duas regiões, a Abecásia e a Ossétia do Sul, que apenas obtiveram reconhecimento internacional limitado. O Estado georgiano, e grande parte da comunidade internacional, considera estas regiões como parte integrante do seu território soberano, por isso há que ter cuidado com o que se diz num lado e outro. Depois de tomar o comboio noturno em Tiblissi e apanhar depois uma "marshrutka" (miniautocarro), entrei na Abecásia, próximo de Zugdidi. Caminhando a pé depois da fronteira entre a Geórgia e a Abecásia, tive de passar por diferentes postos de controlo, apresentando a carta em russo previamente solicitada, e só depois tomei um transporte para a cidade de Sukhumi, duas "marshrutkas", uma até Gali e outra terminando naquela cidade, conhecida pelas praias e termas, pelos sanatórios e pelo clima semitropical. No segundo dia, fui até à marginal para tirar o visto. Passei a estar legalizado. Tinha um compromisso no dia seguinte, no Jardim Botânico Sukhumi, um dos mais antigos do Cáucaso, fundado em 1840 como Jardim Botânico Militar de Sukhum-Kale, com novas plantas, principalmente chá e citrinos. Foi devastado ainda no século XIX, pelas forças turcas, e restaurado no final desse século. Por interposta pessoa, ainda em Portugal, combinei um encontro com o escritor Bagrat Shinkuba, que nasceu precisamente no ano da Revolução Russa (1917). O mais amplamente aclamado dos seus romances, "O Último Deportado" (1974), foi o mote para uma amena conversa, até porque fora editado no mesmo ano do golpe militar em Portugal. Ele sabia-o. Mas o livro remonta às experiências dos seus compatriotas forçados ao exílio no Império Otomano durante o século XIX. Aproveitou para me perguntar por Álvaro Cunhal, cinco anos mais velho do que ele. Para além da admiração pessoal pelo líder comunista português e de o ter conhecido aquando do exílio deste, ambos foram condecorados com a Ordem de Lenine, a maior comenda da União Soviética. Bagrat Shinkuba era amigo de celebridades, mas a sua palavra era clara, a de um poeta verdadeiramente nacional e reconhecido pelo povo. Alto, de cabelo branco, com pronunciadas entradas e impecavelmente vestido, o escritor estava ali perante mim, já com um percurso longo na poesia e na prosa. Iniciara, há pouco, uma nova empreitada, a de organizar, através da escrita, a história e a etnografia da Abecásia. Confessou-me que gostaria de ter sido músico, mas perdeu a esperança desde que, em criança, lhe partiram um violino de estimação. Ainda assim, tocava um instrumento musical folclórico com arco de duas cordas ("apyarch"). Afinal, vinha da música a sua inspiração poética, tal como me confessou. O encontro estava programado para uma hora e foi escrupulosamente cumprido, à maneira da rigidez daquele lado do mundo. O clima estava ameno, o perfume do jardim era intenso. No adeus, Shinkuba aconselhou-me a ir até Pitsunda, uma estância de férias na costa do mar Negro. Ele morreria um ano antes de Álvaro Cunhal..Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.