Marcelo Rebelo anda por aí em campanha a tentar demonstrar que faz a festa sozinho. Muito humilde, muito próximo do povo. O mesmo Marcelo que num debate com Sampaio da Nóvoa, ex-reitor de uma das principais universidades portuguesas, lhe passou o atestado de "soldado raso", pondo-se no papel de general, com muito mais estrelas para concorrer à Presidência da República..Maria de Belém também anda num modesto papel de candidata e até se propõe, caso seja eleita, a pôr chefes de Estado estrangeiros a almoçar em lares da Terceira Idade. Sampaio da Nóvoa não escapa a este registo de homem próximo dos portugueses que tudo fará para dessacralizar a Presidência..Só que os frente-a-frente foram reveladores. Mais do que as ideias sobre o país e o exercício do mandato presidencial, os candidatos ostentaram os currículos e fizeram deles tudo ou quase tudo para validar a corrida a Belém..Esta contradição entre o que os candidatos fazem e o que dizem fez-me recordar um episódio há uns anos com o antigo presidente da Assembleia da República Mota Amaral. No regresso de uma viagem ao Canadá, onde foi ao encontro da comunidade de emigrantes portugueses, os seus assessores insistiram à chegada ao aeroporto (onde não havia uma sala VIP) para que Mota Amaral e a sua comitiva tivessem prioridade no check-in. O pedido foi recusado..O facto de ser a segunda figura do Estado Português não o livrou da fila de passageiros. Mota Amaral mostrou-se, aliás, muito compreensivo. Já os que o acompanhavam ficaram indignados com o tratamento e com a justificação dada pelos canadianos de que todos os cidadãos merecem igual tratamento. Por cá a coisa nunca é assim. As estrelas na lapela dão direitos diferenciados..Num país que ainda é muito de salamaleques, entre os que os fizeram crer que eram uns pés-rapados e os que se julgam uns doutores, são muitos os que ainda não perceberam que já não somos assim tão diferentes uns dos outros..Felizmente o nível de instrução dos portugueses evoluiu muitíssimo nas últimas décadas. Há portugueses com currículos invejáveis, outros que os estão a construir nesse sentido. E há até os que tinham potencial para o fazer, mas não o conseguiram por várias razões, entre as quais a de terem nascido num país mal gerido por gente com muitos galões..E são muitos destes, mesmo muitos, que não toleram que os candidatos a seus representantes os tratem com paternalismo quando precisam do voto, para logo de seguida os olharem com sobranceria. Talvez uma boa dose real de humildade ajudasse a combater um dos problemas mais graves da democracia, muito acentuado nas presidenciais, que é a abstenção.