É só a pintura da sala, nada de mais, e sempre sai um bocado mais barato sem fatura. Ou três horas de babysitting por semana e até se ajuda a miúda a ganhar uns euros para pagar os livros da faculdade. É poucochinho, claro, nem faz mossa. Mas tudo junto e somado a outro tipo de dívidas, mais pesadas, de pessoas e de empresas, aquilo que se acumula no bolo da economia paralela pagaria cinco orçamentos da Saúde. São perto de 46 mil milhões de euros, cálculos feitos pelo Observatório de Economia e Gestão de Fraude, o equivalente a mais de um quarto da riqueza que o país produz num ano. Reaver esses euros que se movimentam debaixo do pano é fundamental para que haja justiça fiscal - e essa premissa é condição imprescindível para uma economia saudável. O caminho não foi simples nem isento de oposição, mas com as medidas de combate à fraude e à evasão fiscal impostas pelo anterior governo, só em 2014, foi possível recuperar mais de 3 mil milhões de euros. Agora, Vieira da Silva - o homem que cumpriu uma das mais importantes reformas estruturais do país - criou um plano de combate semelhante para recuperar contribuições devidas à Segurança Social. E que tem uma dimensão muito relevante: além de recuperar a lista de incumpridores, tornar mais justo o sistema de cobrança. Prevê, por exemplo, que se possa pagar uma dívida de baixo valor em mais prestações, que as penhoras de contas bancárias se limitem ao valor em falta - e não à totalidade do saldo bancário -, ou que essas penhoras sejam levantadas assim que o pagamento é regularizado. Pode não parecer nada de mais, mas incentivar a regularização das contribuições e em simultâneo encontrar uma forma mais justa de cobrá-las, enquanto se garante um acompanhamento preventivo para evitar novas faltas (nas empresas), são passos na direção certa. Para conseguir recuperar os 200 milhões estabelecidos como objetivo, sim, mas sobretudo para tornar cada vez menos prováveis situações de fuga. Cresce a justiça contributiva, cresce o país de forma mais sustentada. Com um fisco e uma segurança social mais eficientes só temos a ganhar.