As docas por onde se escoava o carvão do Sul de Gales e transformaram para sempre a história da capital galesa veem-se à distância, mas o vento forte e a chuva que teima em cair afastam os locais de um passeio por aquele que é um dos cartões postais da cidade, a Baía de Cardiff. Há muito que o carvão deixou de ser a fonte de riqueza do país cuja economia está muito ligada à do resto do Reino Unido e é por isso que aqui não se fala de independência como na Escócia. "Acho que seríamos incapazes de ficar sozinhos", diz Matt, de 28 anos, que trabalha na área financeira. Uma ideia repetida por Jill, Don ou Elena..Depois de ter votado em 2014 contra a independência, a Escócia quer voltar a levar o tema às urnas por causa do brexit. A maioria dos escoceses votaram para ficar na União Europeia, ao contrário dos ingleses e dos galeses. A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, do Partido Nacionalista Escocês (SNP), já lançou as bases para novo referendo sobre a independência no final do processo de negociação do brexit - algo que os conservadores não querem falar para já e a que os trabalhistas se opõem. Mas no País de Gales, o partido nacionalista Plaid Cymru é uma minoria (já esteve no governo como parceiro do Labour). A sua líder, Leanne Wood, defende que o tema tem que começar a ser tratado (apesar de não fazer parte do programa eleitoral). Contudo, uma sondagem YouGov feita no mês passado revela que 47% dos galeses são contra a independência (número que ainda assim tem vindo a cair), com 26% a serem a favor.."Acho que eventualmente Gales poderá querer a independência, mas para já queremos continuar como estamos, no Reino Unido. Acho que não seríamos capazes de ficar sozinhos", admite Jill, de 50 anos, repetindo as mesmas palavras de Matt. "Não temos suficientes riquezas para o conseguir, não temos o petróleo ou o peixe da Escócia", explica ele enquanto espera que a mulher saia do trabalho na principal rua comercial de Cardiff, a Queen Street, onde há mais animação do que à beira do rio Taff..Se Escócia quer a independência e Gales manter a sua ligação ao Reino Unido, a Irlanda do Norte poderá lançar a discussão sobre uma reunificação com a República da Irlanda caso as negociações do brexit se tornem desastrosas, obrigando ao reinstalar das fronteiras e gerando tensão no processo de paz. "É interessante pensar num dia em quatro países independentes, mas sem algum tipo de união, acho que em Gales não somos capazes de sobreviver sozinhos. Iria tornar a economia pior do que é", refere Elena Williams..Mas, alega, isso não significa que não haja nacionalismo. "Somos um pouco conformistas com a situação. Até podemos querer a independência, mas não sabemos como lá chegar", explica, lembrando que os galeses têm "muito orgulho" na sua herança, "mas não sabemos muitas vezes qual é essa herança". Na opinião desta jovem de 28 anos, que trabalha no setor jurídico, nacionalismo não é só querer que todos falem galês..A passear com o filho, Don Powell explica que dificilmente haverá uma independência de Gales, até porque os galeses não estão de acordo no tema. "No norte existe mais nacionalismo que no sul. Na forma de pensar, parecem dois países diferentes. Eles não gostam de nós, porque aqui é a capital e não se fala muito galês e eles têm ressentimentos em relação a isso", resume este reformado de 74 anos. "É uma rivalidade amigável", explica Elena, que é da região norte. A razão de tal divisão prende-se com a atividade portuária, que permitiu o crescimento da cidade que, desde 1955, é a capital do País de Gales. "Cardiff foi uma cidade aberta ao mundo, que recebia mais estrangeiros que vinham trabalhar para os portos, mas isso não é assim no norte. Chegamos às montanhas e é campo e não temos muitos estrangeiros, logo mantemos mais as tradições", justifica. Mas isso também significa que não há oportunidades para os jovens..Matt, Jill, Don e Elena concordam que o principal problema é o desemprego. "Já não há muitas indústrias e por isso já não há muito trabalho. Dependemos do dinheiro da União Europeia para a agricultura e por isso não sei como vamos ficar com o brexit", admite Jill com preocupação. "Odeio o brexit, especialmente porque a maioria do nosso dinheiro vem de Bruxelas. Parece-me estúpido querer sair", conta Elena que parou a bicicleta para atender o telefone junto à estátua de um mineiro na Queen Street, uma das quatro esculturas de bronze de Robert Thomas que adornam esta rua pedonal desde o centenário da sua designação como cidade e meio século como capital..Enviada a Cardiff.[artigo:8536408]