Os primeiros anos do papado de Bento XVI ficaram marcados por vários desastres de relações públicas, nomeadamente no diálogo inter-religioso com muçulmanos e judeus. Podem ter sido as palavras certas na hora errada ou as palavras erradas na hora certa, mas obrigaram o Vaticano a algumas cambalhotas diplomáticas.."O discurso de Ratisbona", a intervenção que Bento XVI fez numa universidade daquela cidade em Setembro de 2006, gerou controvérsia e protestos no mundo muçulmano. Em causa uma referência a uma obra antiga em que o imperador bizantino Manuel II se insurgia contra a conversão pela violência e dizia que a fé de Maomé "era má e desumana". .A declaração abriu uma brecha nas relações entre muçulmanos e católicos e em algumas partes do Islão os protestos tornaram-se violentos. Bento XVI foi então obrigado a distanciar-se daquela passagem, afirmando publicamente que esta não reflectia a sua opinião..E apesar de a sua eleição ter sido muito bem recebida entre os judeus, já que era considerado um dos responsáveis pela aproximação entre as duas religiões no tempo de João Paulo II, as relações com os líderes judaicos também tiveram períodos conturbados ao longo dos últimos cinco anos. .A situação mais grave aconteceu quando, na tentativa de lançar uma ponte para o diálogo com os ultratradicionalistas, da Sociedade de São Pio X, Bento XVI levantou a excomunhão de quatro bispos seguidores de Lefebvre. É que um dos bispos em causa, Richard Williamson, é conhecido pelas suas posições anti-semitas e tinha dado um entrevista, pouco tempo antes, em que negava a existência de câmaras de gás nos campos de concentração nazis e reduzia o número de judeus mortos a 300 mil. .As críticas não se fizeram esperar e o Vaticano acabou por exigir que Williamson se retractasse. As suas desculpas foram mais tarde consideradas insuficientes pelo Vaticano..Outro momento de tensão surgiu com a reintrodução de uma oração pré-conciliar em que se pede a conversão dos judeus. Isto, juntamente com os avanços na beatificação do Papa Pio XII, que tem sido acusado de não ter oferecido suficiente protecção aos judeus na Alemanha nazi, tornou mais precária a reconciliação com os judeus. .E numa visita à América Latina afrontou os povos indígenas colonizados ao afirmar que eles estavam "à espera e desejosos" da religião dos seus conquistadores europeus..Mas foi durante uma visita a África, em Março do ano passado, que Bento XVI proferiu o discurso que lhe valeu as críticas mais generalizadas, ao mais alto nível. Num continente marcado pela epidemia da sida, o Papa considerou que aquela doença é uma "tragédia que não pode ser ultrapassada só com dinheiro, que não pode ser ultrapassada com a distribuição de preservativos" e que estes "até podem aumentar o problema". Retiradas do contexto, as palavras foram consideradas por alguns líderes mundiais e cientistas como perigosas.