É o maior pesadelo de qualquer escritor sentar-se um dia em frente à folha em branco (ou ao ecrã vazio do processador de texto) e sentir que as palavras já não surgem em catadupa, como em tempos surgiam. O "bloqueio do escritor" pode ter muitas causas - cansaço, insegurança, esgotamento criativo -, mas assume quase sempre um carácter de catástrofe pessoal, sobretudo quando o autor em causa está obrigado, contratualmente, a publicar um romance todos os anos. Ou então quando se é uma referência da literatura mundial, com milhões de leitores fiéis. Uma referência como, por exemplo, Gabriel García Márquez..O romancista colombiano é precisamente a última vítima conhecida desta maldição literária. Em entrevista exclusiva ao La Vanguardia, a publicar pelo diário de Barcelona no próximo domingo, Márquez revelou que 2005 foi o primeiro ano da sua vida em que não escreveu uma linha sequer. Jornalista com imenso traquejo, além de ficcionista, o Prémio Nobel da Literatura (1982) teve durante décadas o hábito de escrever diariamente, nos mais variados registos. Agora, à beira dos 79 anos, conhece por fim as agruras de um pousio forçado..A história da literatura está cheia de testemunhos de escritores que um dia experimentaram o que o poeta Samuel T. Coleridge (1772-1834) chamou de "indescritível terror indefinitivo". Aos 32 anos, sentiu-se incapaz de escrever. Terá sido um dos primeiros a assumir sofrer o que se convencionou chamar "bloqueio de escritor" e que actualmente é tema de inúmeros sites. .Definitiva ou temporária, esta inibição criativa é um conceito moderno. Os primeiros casos conhecidos remontam ao século XIX. Tal deve--se, em parte, a uma alteração no modo de encarar a arte, como refere um artigo publicado, em 2004, na revista The New Yorker. "Antes, os escritores encaravam o que faziam como uma actividade racional (...), que eram capazes de controlar. Em contraste, os românticos viam a poesia como algo externo, mágico. Nas palavras de Shelley, um homem não pode dizer 'Irei compor poesia'." .O bloqueio afectou Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Wordsworth... Mas também romancistas conhecidos pela sua elevada produção literária Fitzgerald, Balzac, Victor Hugo ou Dickens. Nos EUA, os casos mais conhecidos situam-se após a II Guerra Mundial, num efeito conjugado da psicanálise com a ambição desmedida de muitos escritores. Hoje há quem tente combater a angústia com Prozac, como se o comprimido fosse capaz de incutir optimismo ao criador mais céptico. .Curiosamente, foi uma espécie de Prozac literário o que salvou García Márquez de um primeiro impasse, aos 32 anos, quando o escritor sentia ter muitos livros à sua frente, "mas não concebia um modo convincente e poético de os escrever". A fuga do "beco sem saída" deu-se com a leitura do romance Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo, obra que abriu o caminho que conduziria a Cem Anos de Solidão. Ironia do destino depois de Pedro Páramo (1955), o próprio Rulfo bloqueou e não viria a publicar mais nenhum livro até ao ano da sua morte, em 1986.