FRIDA KAHLO TORNOU-SE UM BOM NEGÓCIO

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Se Frida Kahlo (1907-1954) fosse viva, tinha feito este mês (dia 6 de Julho) cem anos. O México, onde nasceu, celebra o aniversário da sua pintora mais conhecida. Mas é um galego, que aos 13 anos se mudou com os pais para a Venezuela, tendo agora residência em Miami, que mais atenção tem conseguido na imprensa - e que mais dinheiro tem ganho com a artista.

Carlos Dorado, 49 anos, é um magnata da moda. É ele quem distribui as marcas Versace, Armani e Hugo Boss em toda a América Latina, dando emprego a mais de 1500 pessoas. E ainda que confesse que não é um entendido em arte, compreendeu o potencial da marca Frida Kahlo. Em 2003 viajou para o México para se encontrar com a família da pintora, detentora da sua imagem e assinatura. Hoje, é a Frida Kahlo Corporation, da qual Dorado tem 51% (o restante encontra-se nas mãos dos familiares), que controla esses direitos, tendo produzido já garrafas de tequila e cinco modelos de ténis Converse All Star, que têm impressos fragmentos do quadro Las dos Fridas, páginas do diário da artista e a assinatura. Está em produção uma linha de roupa, sabonetes, cutelaria, cerâmica, produtos de beleza e uma cadeia de hotéis spa - uma dupla ironia, tendo em conta o conhecido bigode e sobrancelhas da pintora, tal como o seu empenho na causa comunista. Sobre esta curiosidade (o comunismo de Kahlo e o capitalismo de Dorado), o empresário galego, assinalando o seu pragmatismo para os negócios, respondeu assim numa entrevista: "Bem, essa é a historia dela".

Raquel Tibol, uma crítica de arte mexicana, discorda do encolher de ombros de Dorado diante do passado político da Frida e do seu companheiro, Diego Rivera, um muralista com fortes preocupações sociais. Mencionando Isolda Kahlo, sobrinha da pintora, que foi uma das entusiastas da proposta apresentada por Dorado, Raquel Tibol disse: "Ela não pode fazer isto, enlouqueceu a tentar fazer ainda mais dinheiro com o nome da família. Neste caso há uma clara falta de respeito: de acordo com o testamento de Diego Rivera, e com os princípios da Fundação Frida Kahlo, todos os lucros provenientes do nome e imagem (da pintora) pertencem à fundação".

Frida Kahlo vira 'franchising'

Frida Kahlo é agora um franchise no qual Dorado já investiu nove milhões de dólares. Foram produzidas 24 mil garrafas de tequila com a marca Kahlo, e vendidas em 21 dos melhores restaurantes dos Estados Unidos da América, estando prevista a exportação para Inglaterra, Rússia, China e Índia.

Críticos de Carlos Dorado consideram de mau gosto a escolha da tequila, dado que a artista, alcoólica, era dependente dessa bebida. A este propósito, Isolda Kahlo, citada pelo The Guardian, declarava: "É uma aventura entusiasmante desenvolver e lançar um produto que caracteriza a minha tia Frida - o seu amor pelo México, a sua força e a sua paixão pela vida". Também já se encontra nas lojas a boneca Frida, vestida de negro, que custa 250 dólares.

No México, onde a pintora é um símbolo nacional, muitas pessoas, principalmente no meio artístico, demonstraram a sua indignação. O escritor Carlos Monsiváis foi um deles: "Não posso estar de acordo com essa avidez económica que esquece o sentido de uma vida e uma obra, que, no caso de Frida, foi em função da generosidade, da arte, da militância política, do controlo do sofrimento".

Espartilho polémico

Um produto, lançado pela Frida Kahlo Corporation, criou particular polémica. Trata-se de um espartilho, desenhado pela companhia de lingerie La Perla, incrustado com cristais Swarovski. Na infância, a pintora sofreu uma paralisia infantil que lhe atrofiou a perna direita. Usava vestidos compridos para o esconder. E aos 18 anos o seu corpo foi de novo afectado. Kahlo ia num autocarro que chocou contra um eléctrico, partindo a coluna. Passou a usar um espartilho ortopédico (que inspirou a peça da La Perla) e foi submetida a mais de 30 operações. Toda a sua vida foi marcada pela dor física. Pintava muitas vezes na cama. Mas Carlos Dorado desdramatizou o proteccionismo de alguns mexicanos, dizendo que Kahlo é património de toda a humanidade e que deve chegar a todos.

O empresário parece ser um homem sem grandes pretensões artísticas. Reconhece-o. Isso percebe-se na forma como descobriu a pintora. Numa das suas empresas, passava por um dos seus empregados que vestia uma T-shirt com a cara de Frida. Nessa imagem ela fumava um charuto. Impressionado pela fealdade da artista, perguntou de quem se tratava. Mais tarde veria o filme, lançado em 2002, e protagonizado por Salma Hayek. "Quando acabei de ver o filme, pensei: porra, esta mulher tem uma personalidade dos diabos", disse. No ano seguinte conheceu a família da artista e propôs-lhe negócio. E agora, Frida Kahlo, além de ser autora de quadros que chegam a valer 5,6 milhões de dólares, também aparece numa linha se sabonetes.|

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