Este sábado, e no atual momento de crise que atravessa o râguebi português, todos os olhos estavam centrados no complexo desportivo do Vale da Rosa, em Setúbal (terreno que é um verdadeiro talismã, já que Portugal nunca ali perdeu), suspirando para que aquele jovem lote de jogadores com uma média de idades de 22,7 anos, sem profissionais nem reforços 'estrangeiros' e liderados por Martim Aguiar, nos desse razões para continuar a acreditar no futuro da modalidade da bola oval..E não poderíamos desejar melhor resposta por parte de Lobos que ali surgiram em versão sub-23 e, desinibidos, de cabeça aberta e peito feito, se atiraram aos mais pesadões polacos com se não houvesse amanhã, dando provas de uma resiliência e dotados de uma atitude altamente positiva que merecem todos os elogios. E os oito ensaios alcançados no mais volumoso resultado internacional do râguebi português de sempre são o complexo vitamínico que precisávamos..Partindo do domínio completo das mêlées - e não recordamos idêntica superioridade diante de equipas de Leste nos últimos tempos - onde o 'pack' nacional fez em picadinho a avançada contrária obrigando-a a cometer faltas sobre faltas, e com os médios João Belo e Jorge Abecasis muito dinâmicos, as linhas atrasadas portuguesas tiveram a plataforma ideal para manobrarem a bola a seu bel-prazer. E quando o conseguiram fazer, foi uma bela sinfonia à beira Sado..E se inicialmente - esta era a primeira partida do ano - os jogadores se mostraram ainda um pouco tímidos e pouco unidos (e aqui e ali denotando mesmo algumas lacunas defensivas que, diante de adversários de outro quilate, podem fazer mossa e urge sanar...), com o correr do tempo as coisas foram substancialmente melhorando... e acabariam mesmo num foguetório de ensaios. Só quatro surgiriam nos últimos 10 minutos de jogo quando os polacos, com vertigens por tanto calor e tamanhas acelerações, já pediam a todos os santinhos para a função se finar rapidamente....Os Lobos entraram dominadores, a empurrar o adversário para o seu meio-campo. E tirando partido da indisciplina polaca, Jorge "Wilkinson" Abecasis, irrepreensível com os pés - foi autor de 25 pontos em pontapés -, convertia quatro penalidades em sucessão. E aos 27' Portugal reinava de forma hegemónica no relvado e já vencia por confortáveis 12-0. Mas cedo se percebia a abissal diferença entre as duas equipas e pediam-se ensaios em Setúbal. E pouco depois a avançada portuguesa fazia a vontade aos adeptos. Alinhamento ensaiado para o primeiro saltador, bola em tapinha para o talonador Nuno Mascarenhas que, colado à linha, fixou e devolveu a Jean Sousa para o enorme e possante 2.ª linha do Montauban fazer o seu primeiro ensaio internacional (19-0)..Sem tirar o pé do acelerador a seleção nacional continuava em cima dos polacos - que, com mãos em estilo raquete, mau jogo ao pé e sem perceberem conceitos elementares como apoio e corretas linhas de corrida, só para lá dos 40' pisaram, pela primeira vez a nossa área de 22! - e uma bola solta após fantástica arrancada de Rodrigo Marta seria captada de forma superior pelo formação João Belo, estabelecendo os 27-0 ao intervalo..O 2.º tempo apenas acentuou o abismo existente entre a 28.ª e a 33.ª nação do râguebi mundial. E com os rapazes de Leste progressivamente mais fatigados e as substituições portuguesas a não desacelerarem o jogo, o resultado só podia avolumar-se. Com Portugal a jogar com 14 contra 13 (amarelos a Jean Sousa e a dois polacos) o capitão Salvador Vassalo faria o terceiro ensaio rápido a captar uma bola solta em lance de Tomás Appleton (32-0)..Um fantástico slalom de Manuel Marta ultrapassando para aí meia-Polónia aos 65' alargava a vantagem (37-0) e nem o ensaio de consolação polaco pelo ponta Jurczynski (depois de mêlée rodada e ganha, desenvolvendo-se o lance pelo lado fechado, mas mal defendido pelo médio de formação português e pelo defesa Manuel Marta) alterava o cariz do encontro..Isto por que os Lobos, feridos pelos primeiros pontos consentidos, empertigaram-se e com ensaios de Rodrigo Marta (não quis ficar atrás do mano mais novo...), do suplente Duarte Diniz, António Cortes (numa cavalgada bem ao seu estilo, para o seu 4.º ensaio internacional noutros tantos jogos) e de novo por Salvador Vassalo (no derradeiro lance da partida numa mêlée que, mais uma vez, levou tudo à frente), coloriram o marcador com tons de verdadeiro massacre: 65- 5, ultrapassando os 59-0 de há dois anos diante da Moldávia..E assim, apesar de todas as (muitas) facilidades de uma seleção polaca com enormes fragilidades, é indesmentível que hoje em Setúbal houve uma grande e adulta seleção nacional, que soube responder à chamada quando se tornava realmente imperioso. Quanto à crise do râguebi nacional, ela segue dentro de momentos....Portugal alinhou e marcou: Manuel Marta (5); Rodrigo Marta (5), Rodrigo Freudenthal, Tomás Appleton, António Cortes (5); Jorge Abecasis (3,3,3,3,3,2,2,2,2,2), João Belo (5); Vasco Baptista, Salvador Vassalo (cap.) (5,5), João Granate, Jean Sousa (5), José D"Alte, Diogo Hasse Ferreira, Nuno Mascarenhas e João Vasco Corte Real..No decurso da 2.ª parte entraram todos os suplentes: Bruno Rocha, Duarte Diniz (5), José Maria Rebelo de Andrade, Sebastião Villax, Martim Cardoso, Vasco Ribeiro, António Marques e Francisco Bruno..Classificação do Trophy: Holanda (3 jogos) e Polónia (4 jogos), 9 pontos; Portugal (1 jogo) e Lituânia (2 jogos), 5; Suíça, 4 (2 jogos); e República Checa, 0 (3 jogos). O próximo jogo da seleção será precisamente na Holanda, dia 9 de março, defrontando o nosso principal adversário na corrida por um terceiro triunfo consecutivo português na prova.