Não é só o terrorismo islâmico - desculpem o pleonasmo - que entra na nossa rotina: a Europa também já tem reacções ao terrorismo na ponta da língua, sempre determinadas, sempre previsivelmente demolidoras para a moral de psicopatas. Sobretudo nas esferas oficiais, há a reacção épica, na qual nos declaramos chocados, apelamos à união dos povos e das crenças e juramos não nos deixar abater pela violência de uns poucos transviados. Tamanho fervor lírico abala brutalmente os terroristas..Depois, há a reacção cosmética, dedicada a organizar vigílias, a iluminar monumentos a fim de convocar a Paz (como os antigos convocavam a chuva) e a proclamar nas "redes sociais" a profunda indignação que cada atentado nos suscita. Os mais activos chegam a pendurar no Facebook a frase "Je Suis (O Que Calhar)". Não custa imaginar o efeito destas medidas em sujeitos habituados a degolar inocentes..Há a reacção especializada, normalmente assegurada nos estúdios televisivos por "politólogos" que começam por lembrar "a complexidade da questão", princípio que desenvolvem para consumo das massas até adormecê-las. O que as dissertações fazem aos membros do Estado Islâmico não deve ser bonito..Há a reacção ecuménica, preocupada em esclarecer que todas as religiões zelam pela harmonia universal, incluindo aquelas com uma significativa quantidade de devotos empenhados em rebentar com o próximo. É coisa para deprimir os candidatos a mártires..Há a reacção herege, que aproveita para recordar o carácter maligno das religiões em geral, no impecável pressuposto teórico de que apenas o acaso impede budistas, católicos e judeus de se explodirem regularmente em aeroportos ou estações de metro. Isto para os "jihadistas" é devastador. Há a reacção alucinogénica, que supõe um vastíssimo "islão moderado" em comunidades que respondem às acções dos radicais com estímulo, protecção e, no mínimo, silêncio. Atitudes assim mantêm os bombistas em respeito..Há a reacção baptismal, que aguarda pela divulgação da naturalidade dos "suicidas" para explodir (sem trocadilho) de júbilo: "Vêem, seus racistas? Vêem como afinal os tipos eram belgas?" - belgas chamados Mohamed e Abdul. Os dados do registo civil provocam razia nas fileiras do Daieche ou lá o que é..Há a reacção cartesiana, superiormente manufacturada por António Costa: "Por cada atentado que ocorre há dezenas que não ocorreram." E por cada português iluminado por um primeiro-ministro destes há milhões de estrangeiros que não o conhecem. Bem feito para os homicidas..Há a reacção sociológica, que lamenta as chacinas por mera formalidade, já que no fundo se interessa exclusivamente pelas causas "profundas" das ditas. Se um tarado trucida xis pessoas a sangue-frio, importa é compreender o "contexto" que impeliu o pobrezito. As vítimas são irrelevantes se comparadas com a análise dos subúrbios em que o tarado cresceu, a ausência de po-líticas urbanísticas "transversais", a falta de estímulos governamentais à aculturação dos imigrantes, o desemprego e, em suma, o que servir para desviar a atenção da matança e nos transforme, a nós sem excepção, nos seus autores simbólicos. Tomem, extremistas, que já almoçaram..Há a reacção inimputável, que isenta os assassinos e responsabiliza exclusivamente George W. Bush (ou outro americano "imperialista" à mão; ou Israel) pelo "fundamentalismo islâmico". Os fundamentalistas nem sabem onde se hão-de meter..Há a reacção queixinhas, que anda a catar indícios de "islamofobia" para denunciar às pessoas de bem tão horrendo crime. Ide buscar, sacripantas..E há a reacção mumificada, consubstanciada no deputado do PCP que culpa as "políticas de direita" pelo zelo exterminador de inúmeros muçulmanos. Há oitenta anos que os comunistas aplicam a mesma lengalenga a tudo o que acontece, num transe que hesita entre a demência e a pulhice. De qualquer modo, em matéria de carnificinas os fanáticos do profeta ainda têm a aprender com os apóstolos de Estaline - um enxovalho merecido..No fim de contas, um facto é inegável: nem todo o terror do universo consegue impedir-nos de fazer figuras escandalosamente ridículas. E, se é difícil arranjar maneira de controlar o ódio de tresloucados, é facílimo impulsioná-lo, bastando para tal proceder exactamente como temos procedido. Este caldo de ingenuidade, êxtase "multicultural" e, no limite, simpatia inconfessa pelos terroristas (por via da aversão ao "sistema") representa, na prática, a abdicação do Ocidente. E o perigo eventual da erupção "xenófoba" na Europa, para que muitas donzelas sensíveis alertam, é simplesmente uma consequência plausível da tragédia em curso, que poucos assumem. Atribuir os cadáveres de Bruxelas, por exemplo de Bruxelas, aos instintos de três ou quatro criminosos é esquecer o bairro que os produz. Ou as crianças de Antuérpia que os celebram em plena sala de aula. Ou o café de Liège que exibe a bandeira palestiniana e proíbe a entrada a judeus. Ou a marcha contra o medo suspensa "por questões de segurança"..Atolados em conversa fiada e na tolerância infinita face ao alegado "desenraizamento" do "outro", vamos renunciando àquilo que nos define e, sejamos francos, eleva acima da barbárie. Não tarda, os desenraizados seremos nós. E os bárbaros estarão em casa.