Nessa altura, escrevia no jornal "Semanário", dirigido por Victor Cunha Rego, e estava a acabar o curso de Direito na Universidade Católica Portuguesa. Talvez já tivesse terminado a primeira época de exames. Era Julho, e deixava uma cadeira para Outubro. Corria o ano de 1985. Tinha vinte e quatro anos. Ao arrepio da "tendência" editorial e política do jornal, onde era colaborador da secção cultural, decidira há muito apoiar o dr. Mário Soares para presidente da República. Estávamos em pleno "Bloco Central" - PS-PSD -, e era então militante de base deste último partido, precisamente desde a formação da coligação em Maio de 1983. Todavia, em Junho, o primeiro-ministro Mário Soares apresentara a demissão. Uma vez assinados os protocolos de adesão à CEE, nos Jerónimos, nessa mesma noite Soares emergiu, solene, na televisão, a explicar ao país que a coligação estava desfeita, depois de um uma ou duas reuniões infrutíferas com a nova direcção do PSD de Aníbal Cavaco Silva..É, pois, um Soares ainda primeiro-ministro, embora demissionário, que compareceu, naquele final de uma manhã bonita de Julho de 1985, numa sala do Hotel Altis, para se apresentar formalmente como candidato presidencial em Janeiro do ano seguinte. Tratava-se do início do MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência). Éramos poucos, mas convictos. Dali sairia aquilo a que se convencionou chamar a "comissão de honra" da candidatura. Nomes? Ao acaso, recordo Adérito Sedas Nunes, Alberto Ramalheira, Seixas Santos, Nobre da Costa, Álvaro Cassuto, Amélia Rey Colaço, Américo Amorim, Alçada Baptista, António Barreto (que acompanhei no "movimento reformador" de 1979), Cunha Teles, Lloyd Braga, Carlos Lopes, Graça Morais, Ilídio Pinho, Jacinto Simões, João Gaspar Simões, Benard da Costa, João Cutileiro, Silva Pinto, Pinto Machado, José Fernandes Fafe, Júlio Resende, Pomar, Lagoa Henriques, Lídia Jorge, Manoel de Oliveira, Homem de Mello, Maria Filomena Mónica, Cesariny, Moniz Pereira, Norberto Lopes, Nuno Júdice, Paulo Rocha, Sophia, Vergílio Ferreira, Vasco Pulido Valente. Nem todos, naturalmente, apareceram no Altis..Quando Soares acabou de falar, cumprimentou o maior número possível dos circunstantes. Também me aproximei, e expliquei-lhe brevemente a minha circunstância e os meus motivos. Nunca fora socialista, nunca tinha votado no PS, acompanhei os "reformadores" Medeiros Ferreira e António Barreto contra o PS e era "PPD". Porém, entendia que ele, Soares, era o homem certo para suceder a Eanes nas eleições do ano seguinte e que, com certeza, teria sociais-democratas a apoiá-lo, ao arrepio da orientação do partido, como efectivamente aconteceu..Mais tarde, seria criada no MASP uma "comissão nacional de juventude", que integrei, precisamente enquanto militante do PSD. Nunca cheguei a ser expulso. Partíamos com uns famosos oito por cento nas sondagens, atrás de toda a gente. Foram oito meses de pré-campanha e de campanha a duas voltas. Ninguém, do grupo inicial, tergiversou até Fevereiro. Vasco Pulido Valente resumiria, com felicidade, o exercício, anos volvidos sobre o primeiro MASP. "Queríamos os dois a mesma coisa: ele queria ganhar e eu queria, Deus me perdoe, que ele ganhasse". Foi assim.