"É preciso esperar alguns anos, pelo menos dois ou três, para começar a perceber como o mundo mudou." Numa entrevista recente à revista Bloomberg, o escritor britânico Ian McEwan - vencedor do Booker Prize com Amesterdão (1998) - justifica, deste modo, o silêncio da ficção perante os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001..Se os acontecimentos de 11-9 foram, no imediato, uma "oportunidade" para o jornalismo e para a reportagem - e, posteriormente, para o ensaio -, só agora começam a ser matéria de ficção. É assim que, mais de três anos depois, o silêncio se quebra e McEwan surge apenas como um entre uma mão ceia de escritores que já elegeram o tema como objecto de romance..Escrito nas "sombras dos atentados", Saturday - cuja edição portuguesa está marcada para Maio, com a chancela da Gradiva - passa-se em Londres num único dia, 15 de Fevereiro de 2003, e é uma reflexão sobre as consequências d o 11 de Setembro. "O tom geral assenta, em parte, nesta nova situação em que nos encontramos, uma história que começou tragicamente", acrescenta o autor de Expiação (Gradiva, 2002). "Acho que estas coisas vão continuar connosco por algum tempo. Mas o mais crucial para os romancistas é que afectam o modo como as pessoas sentem", conclui este escritor de 56 anos, senhor de uma vasta experiência a construir personagens, cujas vidas são alteradas pela ocorrência de acontecimentos inesperados. Neste caso, a vida de Henry Perowne, um neurocirurgião que acorda na sua cama antes do amanhecer e vê um avião dirigir-se para a torre dos Correios, transportando uma bola de fogo na asa. "Desde 11 de Setembro", escreve, "todos concordam, que os aviões parecem diferentes nos céus... predadores ou armas mortíferas"..O momento ideal. É o real a irromper pela ficção, como notava um artigo publicado na passada semana pelo New York Times sobre a publicação recente de cerca de uma dúzia de romances centrados no 11 de Setembro e no qual a escritora e ensaísta norte-americana Joyce Carol Oates defendia que a ficção pode não ser a melhor das linguagens artísticas para lidar com acontecimentos como este. Ao contrário do cinema, que é capaz de captar "a natureza alucinatória das longas horas" daquele dia. Ela própria autora de um romance, Mutants, cuja protagonista é uma mulher que se encontra trancada num apartamento na circunstância em que ocorre o ataque às torres, diz, contudo, ser agora "o momento certo" para o aparecimento deste tipo de obras. .É o que está a acontecer e o New YorkTimes faz essa contabilidade. Além do último romance de Ian McEwan, talvez o nome mais mediático da lista (ver caixa), contam-se os de Frederic Beigbeder, Reynolds Price, Lynne Sharon Schwartz ou Jonathan Safran Foer, um dos mais recentes fenómenos literários que ultrapassou as fronteiras dos EUA com o romance Estava Tudo Iluminado e teve edição portuguesa no ano passado pela Temas e Debates. A mesma editora que comprou agora os direitos para Portugal de Extremely Loud and Incredibly Close, livro em que Foer relata a busca incansável por parte de um rapaz de nove anos de uma fechadura onde caiba a chave que encontrou numa gaveta do pai, morto nos ataques terroristas de Nova Iorque..São apenas alguns dos testemunhos criativos menos imediatos de um acontecimento impactante, isso a que McEwan chama de "momentos de colisão" e que levaram alguns escritores, os artistas plásticos, cineastas, autores de banda desenhada (onde se destaca Art Spiegelman), ou músicos, como Bruce Springsteen, a reagir. Não tardaria muito, também, até que aparecessem registados na poesia, textos ensaísticos, ou até peças onde alguns autores queriam deixar um testemunho literário, mas onde não cabia, ainda, a ficção. .Ficcionar em português. O escritor português Pedro Paixão foi um dos primeiros a fazê-lo em forma de crónicas sobre uma realidade onde deixou entrar a ficção, mas nas quais não entra a invenção. Talvez pela natureza da sua escrita, comandada pelo impulso como reacção a uma realidade que se impõe. "Não tenho imaginação nenhuma. Só escrevo o que vivo, o que não significa que os meus textos sejam autobiográficos. São, sim, biográficos no sentido em que descrevem acontecimentos que me sucederam ou a pessoas que me são mais próximas", justifica ao DN, ao falar dos textos que assinou nas páginas do Público nos dias seguintes aos atentados e que seriam publicadas num livro a que deu o título A Cidade Depois(ver destaque). ."Não são crónicas jornalísticas porque os dados são transformados em histórias", conta o escritor, lembrando o impulso que o levou a Nova Iorque logo a seguir ao "terror". "Senti pânico ao ver as imagens e a única maneira de superar esse medo foi ir lá. Mal entrei no avião fui contagiado pelo ambiente dos portugueses que estavam em Portugal, mas trabalhavam em Nova Iorque e não quiseram deixar de estar lá. naquele momento", salienta, explicando que a sua opção pelo registo a que se convencionou chamar "crónica ficcionada" foi algo que lhe surgiu como natural. .Tornar bela a dor. É este escritor português, que assume a sua relação de amor com Nova Iorque, quem chama ainda a atenção para os perigos da apropriação da realidade, "desta realidade" por parte da ficção. "É como escrever ficção sobre o Holocausto", atira. Pela facilidade que há em ofender os que viveram esses momentos. "Pode ser chocante, porque não há maneira de repor o que aconteceu e a primeira coisa que a ficção faz é transformar, tornar belo, nem que seja pela beleza da escrita, um factor de sofrimento". Ou seja, "é muito perigoso transformar o sofrimento em beleza. Há um prazer completamente perverso associado. Falo do prazer catártico no sentido em que Aristóteles se referia à tragédia grega. Só que os gregos escreviam sobre factos ocorridos há muito tempo". .Porque pela ficção também se faz a catarse. "É uma maneira de encarar a realidade sem se sucumbir depois." Por isso Pedro Paixão diz ter criado personagens fictícias para situações reais. Quanto ao resto, à ficção propriamente dita, só é possível muito depois. Agora? "Depende", responde. Do livro, da qualidade da ficção, do modo como essa vivência é tratada. E remata "Só se escreve histórias sobre coisas que estão mortas.".E parecem tão distantes as palavras que Salman Rushdie escreveu em 2001, na página de abertura do romance Fúria, sobre a Nova Iorque de então, uma cidade onde o "futuro era um casino e toda a gente jogava e toda a gente esperava ganhar".