O cinema é uma invenção sem futuro." A frase dá muito que pensar, nos tempos que correm. E apesar de não parecer nada razoável, estas palavras pessimistas são de Louis Lumière, esse francês de moustache que, com o seu irmão Auguste, inventou um aparelho chamado cinematógrafo. Duras palavras que entram em contradição com a esperança que se vislumbra em cada um dos seus 108 filmes compilados no documentário estreado esta semana entre nós. Feito de tais imagens restauradas em 4k, Lumière! é todo ele a prova de uma arte que espreitava através da técnica, em 1895, traduzindo-se num pleno vigor de continuidade. E continuou, pois então..Thierry Frémaux, delegado-geral do Festival de Cannes e diretor do Instituto Lumière - que esteve em Lisboa no passado dia 5, para a abertura da 18.ª Festa do Cinema Francês - é o responsável pela escolha destes filmes, extraídos de uma coleção com 1422 (a maior parte desconhecidos), que os irmãos Lumière, juntamente com os seus operadores do cinematógrafo, rodaram e produziram até 1905. Além de selecionar, Frémaux faz um aplicadíssimo trabalho de composição, organizando esses pequenos filmes (com cerca de 50 segundos cada) por capítulos temáticos e oferecendo comentários instrutivos e entusiastas a todos eles. O resultado é o mais próximo que se pode ter de uma jubilosa viagem de descoberta e conhecimento, com uma grande dose de fascínio. Tudo o que o espectador da era dos ecrãs de bolso precisa..[youtube:BVcRXIN_woc].Podemos pensar este documentário como se fosse um movimento contrário àquele que vemos em La sortie des usines Lumière (considerado o primeiro filme): em vez de sair da fábrica Lumière, como os seus trabalhadores, somos levados a entrar pela janela das imagens, que deixam um rasto de magia à sua passagem. Como se a inocência técnica dos inventores fosse tomada por uma inesperada força de encenação da realidade... Existe alguma hipótese de uma força inesperada? Frémaux diz-nos que não, e mostra-nos como em Lumière nada é aleatório. Tudo tem origem num rigoroso labor de mise-en-scène, como aquele que se vê, por exemplo, no filme do jardineiro com o gag da mangueira, carinhosamente identificado como a primeira comédia, que já antes Jean Renoir, no documentário Louis Lumière (1968), de Éric Rohmer, tinha analisado como um caso de extraordinária capacidade de elaborar uma situação narrativa com os mínimos recursos técnicos. Por sua vez, noutro filme em que vemos uma menina a alimentar um gato, as ricas afinidades artísticas levam-nos à pintura do pai, Pierre-Auguste Renoir, uma inspiração formal e temática..Trabalho e diversão.Falando em temática, um dos aspetos curiosos de Lumière! é o modo como transmite o que poderíamos chamar de obsessões autorais dos irmãos - sobretudo de Louis, que era o mais empenhado na exploração do invento. Temas bem definidos e repetidos que encontramos nos filmes rodados no próprio contexto familiar, muitos deles a captar os gestos das crianças, ou noutros em que se procura a dinâmica coletiva dos desportos e da diversão em França. Mas a temática maior é o trabalho, como se percebe, desde logo, pelo facto de os operários da sua fábrica de família terem sido os primeiros protagonistas deste cinema. As pessoas são o motivo inaugural das imagens em movimento. Imagens que, através de enquadramentos precisos e alguma sugestão dramática, ensaiam narrativas no pouco tempo que têm de duração... Comédia, fantasia, suspense? Tudo isto é possível identificar no espólio que Frémaux apresenta. Uma linguagem que já era capaz de se sobrepor às coreografias da realidade.