Festivais gastronómicos

As feiras e romarias de Verão são pretexto para as festas de norte a sul, no Continente e nas ilhas, onde turistas nacionais e estrangeiros provam as delícias da cozinha tradicional portuguesa.
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NOS MESES de Verão – Julho, Agosto e Setembro – goza-se a maior parte das férias. As praias e o litoral em geral são os mais procurados, mas cada vez há mais gente a optar pelo interior, seja no verdejante Minho, na rudeza do Douro e Trás-os-Montes, na pacatez das Beiras, na lezíria ribatejana ou na planície dourada do Alentejo. E as ilhas da Madeira e dos Açores atraem cada vez mais veraneantes. Todos querem gozar o ar livre e apanhar sol... e dar uns mergulhos refrescantes. Depois, o complemento lógico é degustar a comida que mais apreciamos, na companhia daquela bebida fresca que sabe tão bem.

Há festas e festarolas um pouco por todo o lado: são procissões em que se pagam promessas, são festas comemorando os padroeiros da terra, aproveitando para se casarem os filhos, são romarias pagãs em que se comemoram as colheitas de Verão e se preparam as de Inverno, são, enfim, os festejos imensos dos homens do mar.

E, em todos eles, há foguetório, violas, cavaquinhos, bombos e acordeão, e lá saem viras, corridinhos e cantos tão diversos, em que se afogam mágoas, se relembram tempos idos ou se aprofundam memórias. Mas é tempo de festa, de folia, e não podem faltar as nossas comidinhas. Sobretudo a cozinha tradicional, tão variada de norte a sul e, felizmente, ainda defendida, praticada e transmitida aos mais novos. Neste povo de marinheiros-camponeses, há sempre lugar a festivais e feiras em que a gastronomia é o tema principal, ou o complemento obrigatório onde se acaba a tarde ou se continua pela noite dentro.

O papel das câmaras municipais, das confrarias gastronómicas e das regiões de turismo é fundamental neste tipo de actividades, que não são só de Verão, antes se estendem pelo ano todo. Falta muitas vezes a divulgação necessária para que apreciadores e curiosos escolham as datas mais convenientes e arranquem país fora, à descoberta daquilo que temos, do nosso património gastronómico, das nossas receitas tradicionais, dos nossos vinhos e dos produtos de cada região.

NO ALGARVE, onde vão dar todos os caminhos dos veraneantes amantes de sol e água tépida, há dois festivais que têm vindo a criar raízes e são já uma tradição popular dos nossos tempos. Divulgando produtos do mar únicos que normalmente são mesmo confeccionados em casa, acessíveis a qualquer apreciador: as sardinhas, que atingem o auge da sua qualidade precisamente nestes meses de tempo quente, e os mariscos da nossa costa, carnudos e saborosos como poucos.

Este ano está de regresso à beleza da zona ribeirinha da cidade o Festival da Sardinha Assada de Portimão, a ter lugar entre 7 e 16 de Agosto. É quase uma provocação aos apreciadores deste pitéu tão português – mas haverá quem não goste da bela sardinha?! – a fazer salivar quem dali se aproxime a partir do final da tarde, com aquela fumarada cinzento-azulada a esvair-se no ar e aquele aroma inconfundível dos peixinhos prateados acariciados pelos braseiros de carvão. A pingar gordura para as brasas, sem serem passadas de mais, para não ficarem secas, apenas borrifadas de sal grosso, para comer em cima de um naco de pão ou de broa de milho, à mão, sem parar! Ou na companhia de batata cozida com pele, salada de tomate, pimentos assados, alface e cebola, azeite farto e pedaços de broa gostosa, é um festim para os sentidos. Vai haver muita música e animação, e, a partir deste ano, o festival está inserido no Allgarve Gourmet, onde se divulga tudo o que há de bom na região. E, felizmente, há ainda muitas coisas boas. A sardinha assada, essa, nunca falta.

Ainda no Algarve, mas agora em Olhão, que é uma das principais lotas da região, é já uma referência o Festival do Marisco, este ano de 10 a 15 de Agosto, no Jardim Pescador Olhanense. Muito bem organizado, é um evento que soube manter as características regionais, atraindo muitos milhares de turistas nacionais que ali estão em férias mas que também se internacionalizou, muito à custa de uma divulgação inteligente e da degustação dos também imensos forasteiros que por ali param nesta época. É uma forma de popularizar o marisco, normalmente um produto caro, mas que pode ser comprado a preços razoáveis e degustado nos restaurantes e também lá em casa.

Ali na feira podemos aprender um pouco mais sobre estes produtos naturais e apreciar sobretudo a qualidade única dos mariscos da ria Formosa, a fazer as delícias dos apreciadores. Não só os mariscos frescos abertos a vapor ou cozidos rapidamente – camarão, gambas, sapateiras, santolas, lagostas e lavagantes, carabineiros e lagostins, mexilhões, búzios e buzinas, burriés, percebes, amêijoas, berbigão, conquilhas, ostras e lingueirões – mas também em algumas das suas confecções com grande tradição no Algarve. Pelos 12,30 euros que se pagam à entrada, temos direito a uma caneca alusiva ao evento, a cem gramas de camarão e uma bebida. O resto está por nossa conta... e pela capacidade da nossa carteira. Nos palcos do festival vão estar grandes nomes da nossa música e até o presidente de República há-de visitar o festival, a atestar a importância do evento.

É ainda no Algarve, nos dias 17, 18 e 19 de Julho, que se realiza pelo terceiro ano consecutivo o Portimão Wine Festival, na zona ribeirinha de Alvor, bem perto de Portimão. E que este ano tem uma inovação bem interessante: a 1ª Mostra de Sopas do Algarve, nem mais!

Ali se vão poder provar sopas diversas, divididas em três categorias: sopas de sempre, sopas de autor e sopas algarvias. E que serão confeccionadas por vários chefes, alguns bem conhecidos, quer a título pessoal quer em representação das suas unidades hoteleiras, restaurantes e mesmo da Associação de Cozinheiros do Algarve. Sopas como creme de ervilhas com presunto, caldo verde, gaspacho, sopa de bacalhau, sopa de alfarroba e alho francês, creme de camarão, sopa de peixe e o célebre arjamolho do Algarve, vão ser apreciadas e repetidas vezes sem conta pelos visitantes da feira.

NA REGIÃO Centro do país não são sopas mas são tasquinhas que vão servir petiscos deliciosos, bem regionais, durante o 26.º Festival do Vinho Português, entre os dias 18 e 26 de Julho, no Bombarral, na região da Estremadura. Um casamento perfeito entre vinho e gastronomia regional. Entre outros aprecia-se cabrito assado no forno, a pêra-rocha da região, as conservas de frutas e deliciosos licores. Ainda no Bombarral, de 20 a 24 de Agosto a fruta de que a região é a maior produtora nacional tem direito ao Festival da Pêra-rocha.

Com a adesão de cerca de trinta restaurantes do concelho, tem lugar mais um Figueira Gastronómica, dividido por vários festivais temáticos, que vão animar a cidade da foz do Mondego e dar a apreciar alguns petiscos da região: de 16 a 26 de Julho é o Festival dos Mariscos e, de 3 a 13 de Setembro, o Festival das Caldeiradas, em bons restaurantes da Figueira da Foz.

Na região de Aveiro, mais precisamente na Gafanha da Nazaré, acontece de 19 a 23 de Agosto mais um Festival do Bacalhau, novamente no Jardim Oudinot. É naquela localidade que se concentram as maiores empresas de pesca e transformação de bacalhau e no festival podem ser apreciados muitos preparados deste peixe, de que somos o maior consumidor do mundo. Por ali vão passar as postas e as barbatanas, mas também as caras, as línguas e os samos, muitos deles preparados à maneira dos pescadores, para delícia dos apreciadores.

Nas férias não pode faltar o leitão assado à moda da Bairrada que, mesmo que não seja assado na região, sabe sempre bem. Mas entre 9 e 13 de Setembro, é mesmo na região bairradina que os leitõezinhos vão ser assados e consumidos, durante a 16.ª Festa do Leitão da Bairrada, a decorrer, como habitualmente, em Águeda.

De tamanho adequado, temperados como manda a tradição e trabalhados em fornos também tradicionais, tostadinhos por fora, de pele estaladiça, suculentos e húmidos por dentro – os leitões são servidos com batata cozida com pele e, à parte, rodelas de laranja e uma refrescante salada mista. Na companhia daquele pão da Bairrada, delicioso, cozido diariamente. Ao lado do prato, sempre cheia, a taça de espumante da região, bem fresco, borbulhante, uma maravilha (experimente o espumante bruto tinto, que liga lindamente).

MAIS A NORTE, em Matosinhos, arranca o Festival Gastronómico já na próxima sexta-feira, 17 de Julho, e estende-se até dia 24. Vai decorrer nos muitos restaurantes inscritos, num concelho onde a gastronomia é uma das actividades principais, com ofertas variadas, embora peixes e mariscos frescos sejam bem populares. Cada restaurante aderente terá pelo menos um prato especial para o festival, com um desconto de cinquenta por cento quando pedido pelos clientes.

Em Vila do Conde, a tradição começou por ser o artesanato, naquela que é talvez a maior mostra de artesanato do país, há muito tempo de nível internacional, mas que a pouco e pouco ganhou, e muito, com a inclusão das tasquinhas, que são hoje de visita quase obrigatória para quem ruma a Vila do Conde. Entre os dias 25 de Julho e 9 de Agosto, há mesmo muitas pessoas que vão propositadamente a Vila do Conde para visitar as tasquinhas e apreciar petiscos diversos, um pouco de todo o país, entre pratos ligeiros e frescos que sabem bem no tempo quente, e muitos outros mais pesados – umas rojoadas e umas cabidelas – para quem não abdica de coisas mais sérias. E na 32.ª Feira Nacional de Artesanato estão à nossa disposição muitos produtos regionais que podem ser comprados ali mesmo.

Lá bem mais acima, no Alto Minho, em Lanhelas, a partir do primeiro fim-de-semana de Setembro irá decorrer mais uma Festa da Solha. São peixes de rio, fáceis de amanhar, que se temperam com simplicidade, sal e pouco mais, e que podem ser apreciadas cozidas ou fritas na companhia dum arroz de feijão ou de ervilhas. Uma raridade, mas que ainda vai aparecendo, são as solhas salgadas e secas ao sol.

Vinho verde no copo, à sombra duma ramada, é desfrutar o Minho verdejante... onde há romarias todos os dias, sobretudo no mês de Agosto. Há para todos os gostos, como os festejos religiosos da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, de 20 a 23 de Agosto, onde sardinha assada e poderosos sarrabulhos não faltam no prato.

Ou a Festa de São João d’Arga, em Arga de S. João (Caminha), a 28 de Agosto, também de cariz religioso, mas onde a vertente pagã está presente. É uma romaria em que as pessoas das aldeias rumam ao santuário ao fim da tarde, sempre na companhia de violas, guitarras e concertinas, aqueles cantares estridentes a ecoar por montes e vales, preparados para passar a noite ao relento, a comer petiscos variados, com a presença obrigatória do cabrito à São João d’Arga, uma receita tradicional muito apreciada.

Lá para os meses de Outono, seguem-se os caminhos do interior do país, é a caça, são as carnes de porco, os sarrabulhos, as açordas, os cozidos, os enchidos e o fumeiro... Mas isso é depois do Verão, com calma lá iremos!

Boas férias.


Petiscos dos Açores

Também nas ilhas se festeja a nossa gastronomia. Nos Açores, na ilha Terceira, vai acontecer a 10.ª Feira de Gastronomia do Atlântico, entre os dias 31 de Julho e 9 de Agosto. É na cidade de Praia da Vitória, ali mesmo em frente ao mar, que vamos poder provar e apreciar petiscos diversos de restaurantes que vêm um pouco de todo o país, e que conta este ano com uma presença da Catalunha. O tradicional restaurante Galanta, mesmo ali da ilha, representa a região autónoma no evento.

Uma boa oportunidade para fazer aquelas férias nos Açores que nunca se fizeram, apreciar a beleza das ilhas – referenciadas pela conceituada National Geographic como um dos destinos ecológicos do mundo – descansar e apreciar comida de todo o país, comparando-a com o que se faz no arquipélago. Estão previstas quatro conferências ligadas ao tema da preservação dos produtos tradicionais portugueses e mesmo da contribuição dos produtos do arquipélago como uma oferta turística de excelência. Afinal é dali que vem grande parte do peixe fresco que consumimos.

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