Tem 69 anos, mas quem o ouve todos os dias não acredita. A forma ritmada e compassada com que relata, a rapidez que imprime ao jogo, a alegria que empresta ao momento mágico do golo fazem de Fernando Correia, o mais antigo relator desportivo em actividade, uma referência na história da rádio..Logo à noite, quando abrir a emissão da TSF, em directo do Estádio de Alvalade, para relatar o Sporting-Belenenses, o jornalista dá o pontapé de saída para a edição deste ano da Superliga, a sua 46.ª temporada como narrador desportivo. .Atrás de si, Fernando Correia tem uma longa história, que já leva 50 anos de rádio. "Comecei na antiga Emissora Nacional a fazer rádio, mas os relatos começaram só cinco anos mais tarde", recorda ao DN. Ali ficou 30 anos, até saltar para o então Rádio Clube Português. Mas foi na Comercial que se operou a primeira "grande revolução". "Foram tempos muito excitantes e uma pedrada no charco na história da cobertura de jogos de futebol. E digo-o com uma ponta de vaidade. Foi lá que iniciámos o relato com dois narradores, a reportagem volante junto ao relvado e o comentário de arbitragem, com o Carlos Cardoso", conta. .A moda pegou e hoje não há relato sem um ou dois repórteres atrás das balizas, junto à relva, de colete branco vestido, de microfone emissor na mão e a bateria Pastega ao ombro. "A Comercial desses tempos foi pioneira e a tendência foi seguida pelas outras emissoras", afirma..Na TSF desde a fundação, já lá vão 16 anos, Fernando Correia não esconde ainda a alegria e o prazer de relatar um jogo. "É sempre um momento único", garante. E em tantos anos de carreira que já leva, regozija-se pelo facto de "nunca ter falhado um campeonato da Europa e do Mundo". "Creio não haver muita gente a poder gabar-se dessa proeza", acrescenta..Para trás ficaram as viagens ao estrangeiro, os novos mundos e realidades conhecidas. "Antes do 25 de Abril foram tempos muitos importantes para mim, porque descobri lá fora coisas que, em Portugal, desconhecia. Este era um país muito fechado do ponto de vista político e social", lembra. .CLUBISMO. Num mundo onde os jornalistas raramente assumem as suas preferências clubísticas (ou que, eufemisticamente, respondem torcer "por Portugal"), Fernando Correia é também um caso raro. "Sou do Sporting, é verdade. Não tem mal nenhum dizê-lo." A declaração não é surpresa para ninguém, até porque o jornalista já dirigiu o órgão oficial do clube verde-branco e nunca escondeu a sua simpatia pelo clube de Alvalade. "Antes de entrar na Emissora Nacional, vivi em Inglaterra e frequentei muito essa grande escola que é a BBC. Foi aí que aprendi que isso de dizer que os jornalistas desportivos não têm clube é uma falácia, um disparate. As pessoas têm de assumir o que são", enfatiza. O que importa, sublinha, é "trabalhar de forma objectiva e independente". E nesse particular, ninguém nunca lhe atirou uma pedra. "Há casos em que as pessoas ficam na dúvida. Será do Benfica? Será do Sporting? Será do Porto? No meu caso, as pessoas não têm dúvidas. Eu sempre assumi." O que não o impede de gritar com a mesma intensidade um golo de outra cor. Mesmo que, por dentro, o seu coração de adepto lhe apetecesse o contrário. "Há uns tempos aconteceu-me uma coisa que me encheu de orgulho. Estava no Estádio da Luz, a apresentar um livro sobre o José Águas. A determinado momento, um sócio chegou-se ao pé de mim e disse-me 'Deixe-me dar--lhe um abraço. A melhor alegria que me podia dar era ser sócio do Benfica. Eu sei que é do Sporting, mas gostava que fosse do meu clube'. Fiquei muito contente", diz..FUTURO. Fernando Correia ainda não decidiu se esta é a sua última época como narrador de futebol. A morte, a 6 de Maio deste ano, de Jorge Perestrelo, companheiro com quem, apesar de divergências várias, viveu páginas de ouro do futebol português, fê-lo repensar a sua carreira. A morte súbita do jornalista, vítima de enfarte do miocárdio, mexeu com Correia. "Lembro-me de naqueles dias ter pensado em acabar a carreira e cheguei mesmo a dizer que esta seria a minha última época." Agora, não tem tantas certezas. Sabe que a idade avança, que o físico já se ressente mais das emoções, mas sabe também que a rádio é parte importante da sua vida. "Se no final desta época, a TSF continuar a precisar de mim e eu sentir que tenho saúde, admito continuar", reflecte..O futuro dos relatos desportivos na rádio está assegurado, no que diz respeito à qualidade. "Há muito boa gente na TSF, na Antena 1, na Renascença e até nas rádios locais. Não estou preocupado com a qualidade, mas sim com a quantidade. É que apesar de haver gente com muita qualidade, não há muitos novos valores. É difícil encontrá-los." Por isso, considera, era útil "criar uma escola de formação". Para que a magia da rádio não se perca pela linha de fundo...