Diz o americano Daniel Hamilton, hoje em entrevista ao DN, que "Trump não é um fenómeno isolado" pois "os europeus lidam com o mesmo". O professor de Relações Internacionais na Universidade Johns Hopkins nota que há figuras comparáveis em alguns governos - relembra que o húngaro Viktor Orbán até festejou a vitória de Donald Trump nas presidenciais americanas - e que com as eleições que vão acontecer em breve outras poderão destacar-se..Entre essas outras figuras, sem dúvida está Marine Le Pen, candidata da extrema-direita francesa às presidenciais de abril (e maio), que ontem em Lyon encerrou a reunião da Frente Nacional a declarar-se "candidata do povo contra o dinheiro da esquerda e da direita". Defensora de fronteiras fechadas, como Trump, do protecionismo económico, também como Trump, e da mão dura com o crime, igualmente como Trump, Le Pen não é porém uma cópia do magnata americano. Aliás, a uni-los a sério apenas existe a denúncia do sistema e a crítica aos políticos tradicionais, que Trump faz como alguém que chega do mundo empresarial e Le Pen como herdeira (intelectual e biológica) de um movimento durante muito tempo feito um pária pelo resto do mundo partidário francês, quando tinha à frente Jean-Marie Le Pen..A política francesa assume-se como diferente, não refém de interesses. Uma acusação aos restantes candidatos, da direita tradicional à esquerda socialista. E é curioso que aquele que parece emergir como o seu rival, numa provável passagem à segunda volta, é Emmanuel Macron, que foi ministro no governo socialista, mas que se afastou para candidatar-se como independente. Uma vitória do ex-ministro das Finanças não traria um choque como o do triunfo de Le Pen, mas mostraria a fraqueza do partidarismo francês..Ora, esta facilidade com que os sistemas tradicionais se fragilizam há que ter uma explicação, mesmo que um pouco diferente de um lado e de outro do Atlântico. Do PASOK que quase desapareceu na Grécia às mãos dos esquerdistas do Syriza até um Partido Republicano sequestrado por um mal-amado Trump, passando pelo partido de Geert Wilders na Holanda ou o movimento 5 Estrelas em Itália, não existe uma reação a uma parte da classe política, mas sim à própria classe política..A política já não convence e das crescentes taxas de abstenção passou-se para os fenómenos eleitorais. Talvez não ajude quando se lê que na Roménia, mas podia ter sido noutra democracia qualquer, os políticos queriam aprovar uma lei que os livrasse de penas por corrupção.