Howard Hughes queria ser admirado ou olhado com temor?.Não sei se as coisas eram assim tão simples. Eu de certeza que não queria ser realizador de um dos filmes que ele produziu. Também não sei se voaria com ele. Mas Hughes foi um homem que mais tarde na vida tomou posições bastante fortes e controversas contra alguns movimentos políticos. Foi um dos primeiros bilionários, tinha de ser um capitalista, um anticomunista. Também usou o dinheiro como arma - não que eu admire isso. Vejo Howard Hughes como uma história que tem de ser contada. Ele era um génio, mas havia uma falha fatal nos seus genes..Ele podia ser um perigo?.O que é que quer dizer com isso?.Um perigo para a sociedade?.Possivelmente. Era o homem mais rico do mundo. Como acontecia com os reis gregos, às vezes as pessoas mudam quando acumulam tanta riqueza. Ele tinha esse elemento ou gene dentro dele. A maldição da família, o lado negro, estava nele. Depois de ter ganho a querela com o Senado, recebeu milhares de cartas que diziam "Howard Hughes para Presidente"..Como é que você o via na sua juventude?.Eu sabia que ele estava recluso no deserto, que era excêntrico, louco. Os filmes dele não eram vistos. O meu pai falou-me desses grandes filmes e perguntávamo-nos sempre onde é que estariam. Ele foi acusado da destruição dos estúdios RKO, mas isso foi apenas a última de muitas coisas que aconteceram à RKO. Eu fiquei fascinado com a primeira parte da vida dele, quis compreender o homem enquanto aviador e levar os espectadores a pensar nos melhores aspectos da sua existência. Hughes deveria ter sido condecorado por ter voado à volta do mundo em quatro dias, pela construção e aerodinamismo daqueles aviões que, como o H-1 acabaram por se tornar aviões espiões, o U2 ou o bombardeiro stealth. Ele não era apenas um velho louco fechado num quarto. Era um homem que tem de ser reconhecido pelo bom e pelo mau..Onde é que está Martin Scorsese neste homem? .Talvez me sinta atraído pelo seu carácter. Não vou ser tão presunçoso ao ponto de dizer que tenha feito no cinema o mesmo que ele fez nos negócios ou na aviação. Mas houve momentos de isolamento, alturas difíceis na minha vida em que eu queria estar isolado dos outros ou em que me isolei deles (risos). Foram tempos difíceis e eu posso não me ter portado bem. É por isso que simpatizo com Howard Hughes. Isso não significa que tivesse gostado de trabalhar com ele. Gostava de o ter conhecido no início. Era muito amigo de Cary Grant, charmoso, um homem notável..Existiu mesmo uma tensão sexual com a mãe? E é verdade que ele tinha a fobia dos micróbios e não partilhava uma colher para comer um gelado?.Mantivemos a história do gelado no filme porque ele teve alturas na vida em que era capaz de partilhar uma colher com uma pessoa se tinha proximidade com ela. As pessoas estão sempre a dizer "Se ele tinha tanta fobia dos micróbios, como é que conseguia relacionar-se com tantas mulheres?" O Dr. Jeffrey Schwarz, o nosso conselheiro técnico, disse que a mente tem a capacidade de separar totalmente as coisas. A história com a mãe no começo do filme... isso foi em 1909. Tenho 62 anos e lembro-me bastante bem do medo da poliomielite, em 1950. Quase morri aos dois anos com tosse convulsa.Tive asma muito violenta e estive inválido durante parte da minha vida a partir dos 3 anos. As doenças eram muito reais, assim como a mortalidade infantil. Com a vacina da poliomielite muita coisa mudou. E isto sucedia em 1950. Pelo que eu compreendi das biografias que li, Houston, no Texas, era muito pantanoso na altura, um viveiro de doenças. A mãe de Hughes era superprotectora e o gene que causa a neurose obsessivo-compulsiva vinha dela. Daí a intimidade, quando ela diz ao filho:"Não estás em segurança." Muitas mães tocam e lavam os filhos, mas talvez na cabeça dele existisse uma sugestão sexual perturbadora, não sei. Gosto do toque de mistério..Leonardo Di Caprio ainda tem cara de bebé..Howard Hughes tinha cara de bebé quando era da idade do Leo. Mais tarde alterou o penteado e depois de ter o grande acidente de avião deu-se uma mudança muito grande. Na cena com Kate Beckinsale, quando ele lhe diz "Porque eu me preocupo contigo", para explicar porque é que lhe pôs as escutas, a pronúncia é igual à do Howard. Nesse momento, o Leo, para mim, é o Howard Hughes. No Senado dos EUA existe um filme a preto e branco dessa altura e o Leo concentrou-se nele. Se for ver, ele é literalmente igual ao Howard..A sua relação de amizade com Di Caprio é diferente da que tem com Robert De Niro?.Temos 30 anos de diferença. De Niro e eu somos da mesma idade, temos uma experiência de crescimento semelhante, numa zona similar, apesar de eu ser da classe trabalhadora e ele de uma família de artistas. De Niro conhece o mundo em que eu cresci, as pessoas desse tempo. Isso não pode ser repetido. Com Harvey Keitel acontece o mesmo, até certo ponto, mas ele é de Brooklyn. Foi De Niro quem primeiro me falou sobre Leo, "É um rapaz com quem tens de trabalhar", disse-me - e é raro ele recomendar pessoas. Já tivemos uma boa experiência em Gangs de Nova Iorque,numa rodagem difícil de 154 dias, por oposição aos 91 de O Aviador. Eu e Leo conhecemo- -nos relativamente bem, dizemos um ao outro, "tens de ler este livro ou ver aquele filme". Interessamo--nos pelos mesmos temas, pessoas e personagens que são de alguma forma imperfeitas ou perigosas. É uma relação de confiança mútua e espero que continue assim..* Exclusivo DN-Planet Syndication