Farol da revolução mundial passou ao lado da Revolução portuguesa

A grande revolução cultural proletária, lançada pelo antigo presidente chinês Mao Zedong na década de 1960, influenciou muitos estudantes e intelectuais portugueses, mas a China acabou por estar ausente do processo revolucionário em Portugal.
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Após o 25 de Abril, Pequim ignorou a disponibilidade das novas autoridades portuguesas para estabelecer relações oficiais com a China e, entre os vários grupos que se reclamavam do maoísmo, apoiou um dos mais pequenos: o Partido Comunista de Portugal (Marxista- Leninista).

O secretário-geral do PCP (M-L), Heduino Gomes, foi mesmo o primeiro responsável político português recebido em Pequim depois da queda da ditadura em Portugal, em Abril de 1975.

Na mesma altura, dois representantes de outra organização maoista portuguesa, o MRPP, tentaram antecipar-se, mas não saíram do aeroporto de Pequim, e segundo Heduino Gomes, que se encontrava então na capital chinesa, "foram recambiados no próprio dia".

"O PCP (M-L) e o Partido Comunista Chinês são partidos irmãos", proclamou Heduino Gomes ao regressar a Portugal.

O secretário-geral do PCP (M-L) voltou à China em 1977, quando se encontrou com o sucessor de Mao Zedong, Hua Guofeng, e também no ano seguinte.

Os contactos do PCP (M-L) com a China, que se prolongaram até à extinção daquele partido, no início da década de 1980, remontam ao antigo CMLP.

Foi o primeiro movimento "pró-chinês" da cena politica portuguesa, fundado em 1964, e um dos seus principais líderes, Francisco Martins Rodrigues, visitaria a China no ano seguinte.

Logo no Verão de 1974, o novo ministro português dos Negócios estrangeiros, Mário Soares, considerou "do mais alto interesse" a "normalização" das relações com a China e em Janeiro de 1975, Portugal reconheceu o governo de Pequim como "o único legítimo representante do povo chinês".

  Entretanto, o embaixador português na ONU, Veiga Simão, encontrou-se com o homólogo chinês, Huang Hua, futuro ministro dos Negócios Estrangeiros.

Veiga Simão ficou apenas um ano em Nova Iorque, mas ainda testemunhou a reacção dos diplomatas chineses às primeiras eleições livres realizadas em Portugal, em Abril de 1975, e que foram, até hoje, as mais concorridas de sempre.

"Ficaram contentíssimos por o Partido Socialista ter sido o vencedor e o Partido Comunista, considerado fiel à linha dura soviética, ter ficado em terceiro lugar", recordaria Veiga Simão.

Em Maio de 1975, ao noticiar o resultado das eleições, o "Pekin Information" indicou apenas as votações obtidas pelo PS e o PPD, não mencionando sequer o PCP.

Nas únicas eleições a que concorreu, em 1976, o PCP (m-l) e a sua "frente de massas", a AOC (Aliança Operário-Camponesa), obtiveram 31.551 votos (0,58 por cento) -- menos que o MRPP e cerca de um terço da votação da UDP.

 Portugal e a República Popular da China só estabeleceriam relações diplomáticas em Fevereiro de 1979.

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