Facções criminosas são como grandes empresas

Nasceram nas prisões e é lá que estão  os chefes. Robinho Alves conta como saiu de um.
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Setembro 2007. Alto da favela Vila Alice, Rio de Janeiro, com vista para a viela que serve de porta de entrada para o tráfico de droga: "Você está a ver aquele homem ali em cima da árvore, com uma arma? Ele está autorizado a matar, sem piedade, quem atravessar essa rua sem permissão."

A voz é calma, cerimoniosa. Robinho Alves, 34 anos, já fez parte da facção criminosa Terceiro Comando, uma das principais do Rio de Janeiro, a par do Comando Vermelho (ver caixa). "Não é fácil começar uma nova vida e sair da facção. Mas consegui a tempo. Não era para mim. Eles diziam que eu era muito bonzinho para ser bandido. Respeitam-me por ter saído e não me criaram problemas." Um caso "raro", reconhece.

"Quem muda para outra facção e é apanhado, ou se há suspeita de traição, morre. Já vi amigos serem decapitados e morrerem a tiros. Outros são regados a gasolina e morrem queimados. É um clima muito pesado", desabafa. Depois mostra a marca das balas e estilhaços no corpo magro, moreno. "Esta quase me custou a vida. Foi num ataque do Comando Vermelho. Quando a facção inimiga entra na favela, começa a guerra".

A voz segue sem emoção, natural, espontânea e ele não muda o registo, mesmo para responder se a morte não o amedrontava. "Nem pensamos nisso, ficamos programados como soldados: práticos e com instinto de sobrevivência." E é como "um exército" que as facções criminosas "estão preparadas". No fim de Julho, a polícia desmantelou uma oficina de montagem e manutenção de armas. Encontraram um arsenal das Forças Armadas da Bolívia. Robinho fala, ainda, em "parcerias russas" para o fornecimento de armas. A operação policial reforça a tese: encontraram um fuzil AK-47 de fabrico russo.

Robinho Alves hoje é artista plástico e diz que "entrou" para "o crime" por "necessidade". "Não conseguia arranjar trabalho, tinha dois filhos para sustentar, começaram a aparecer as contas para pagar, fraldas para comprar. Já me tinham feito a proposta várias vezes. Rejeitei, sempre. Mas não tive hipótese. É dinheiro rápido. E facilmente cheguei a gerente. Há dias em que conseguia ganhar cinco mil reais [1800 euros]."

A estrutura das facções criminosas é parecida com a de uma empresa: "há chefes, gerentes, negócios; recrutamento". Só que muitos líderes "não chegam aos 30 anos". "Morre-se cedo." Numa entrevista ao DN, em Fevereiro, o sociólogo brasileiro Sérgio Adorno da Universidade de São Paulo, comparava o Primeiro Comando da Capital (PCC), que actua no estado paulista, a uma "multinacional", com uma rede de "prestação de serviços". A especialista em estudos de violência urbana do Rio, a antropóloga Alba Zaluar fala, ainda, em "retórica política", no modo de operar das facções, que "justifica os crimes empreendidos".

Segundo estudos, as facções criminosas no Brasil nasceram nas prisões e continuam a operar a partir de lá, sobretudo em São Paulo, através do PCC. "Muitos líderes planeiam crimes nas prisões", diz Adorno. Armas, tráfico de droga e raptos para extorquir dinheiro são os principais "negócios" do crime organizado. "Um mundo violento, por vezes com a aceitação das comunidades, porque as dificuldades e carências sociais são imensas", disse Chineider Pinheiro da ONG AfroReggae num seminário internacional. "Onde o Governo falha, o crime organizado salva", reforçou.

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