Um festival de cinema não se faz apenas da projeção de filmes. Assim volta a acontecer no LEFFEST, a decorrer até ao próximo domingo, com a exposição Éloge de l"Image - Le Livre d"Image que, em qualquer caso, ficará disponível por mais algum tempo, até 2 de dezembro, na Trienal de Arquitectura (Palácio Sinel de Cordes, Campo de Santa Clara, próximo da zona da Feira da Ladra), em Lisboa. O cineasta e produtor suíço Fabrice Aragno (nascido em Neuchâtel, em 1970) é o responsável pela conceção e produção da exposição. Regressa, assim, a O Livro de Imagem (2018), um dos filmes em que trabalhou com Jean-Luc Godard (1930-2022), numa aliança multifacetada, iniciada em 2002, em que foi produtor, diretor de fotografia, engenheiro de som e montador. Para Aragno, mais do que organizar uma memória do filme, trata-se de criar um espaço em que seja possível viajar dentro dele..Esta exposição não é uma homenagem póstuma a Jean-Luc Godard, mas sim algo que começou com ele, com as suas ideias. Foi em 2020 que o Visions du Réel, em Nyon, propôs a Jean-Luc fazer alguma coisa com o festival. Havia uma relação de amizade entre ele e a diretora, Émilie Bujès, além de que Nyon é muito perto de Rolle, onde Jean-Luc morava. Ela disse que não tinha dinheiro para fazer um filme, mas tinha um lugar: o Castelo Museu de Nyon. Aí, eu disse que há algo de frustrante quando se mostra um filme: podemos trabalhar quatro anos para o fazer e, depois, a projeção dura uma hora e meia e... acabou. No caso de O Livro de Imagem (2018), o filme é de tal modo denso que é pena que não seja possível partilhar tudo o que há nele - e talvez que um lugar como aquele fosse uma boa maneira de partilhar tudo o que o filme me fez, e faz, sentir..E como é que organizou essa partilha? Jean-Luc disse-me para avançar, a diretora também estava de acordo. Durante a pandemia, dividi o filme em fragmentos - desmontei-o, de facto. Depois criei um pequeno sistema computorizado que permite gerir 40 pequenos vídeos, de modo que, na exposição, o espectador se possa deslocar não exatamente a ver o filme, mas... dentro do filme. Jean-Luc definiu, então, como mostrar tudo isso: seriam cinco partes, como os cinco dedos de uma mão ou os cinco sentidos..Quando entramos na exposição, encontramos o quê? Encontramos um vídeo de Jean-Luc a explicar as cinco partes e, logo a seguir, um caderno com aquele que é o primeiro argumento de O Livro de Imagem. Depois, começamos a ver uma série de livros que, de facto, fazem parte do filme, no sentido em que ficaram ligados ao trabalho de preparação - por exemplo, O Rumor da Língua, de Roland Barthes. E também a mesa de trabalho... e também fotografias dos cães Roxy e Loulou, dos passeios com os cães... Tudo se liga. Enfim, talvez não faça sentido [riso], mas para mim faz..Depois, trata-se de percorrer as salas... E em cada sala encontramos sempre duas cadeiras. Quer dizer, se estamos sozinhos, há um lugar que fica vazio para alguém que não veio ou ainda não chegou..Por vezes, perante todos os ecrãs, parece que estamos a ouvir o som de vários filmes. Tecnicamente, tudo está tratado como sendo o som de um único filme. Acontece que, por vezes, podemos estar a olhar para um ecrã e ouvir um som que vem de outra sala. O que, aliás, decorre de uma ideia central da exposição: a montagem de tudo o que vemos e ouvimos somos nós que a fazemos, acontece em nós - é uma montagem mental..E porquê os tecidos transparentes que servem de ecrãs? Lembro-me que Jean-Luc visitou a exposição, em Nyon, num dos últimos dias da montagem e ficou verdadeiramente tocado por aquilo que viu: subitamente, o seu filme tinha adquirido espaço. Com uma imagem aqui, outra ali, é possível viajar no interior do próprio filme - cada imagem é livre. Na primeira versão, usámos televisores e prateleiras do Ikea. Aqui, tal como aconteceu na segunda versão da exposição, apresentada em Paris, usámos tules: são tecidos de teatro que funcionam como ecrãs, lençóis ou roupa estendida, gerando, na profundidade, alguma sobreposição e associação de imagens. Para mim, esta é a melhor maneira de conhecer um filme: fazer com ele uma exposição..Há, portanto, uma programação das imagens que está sempre a mudar? Digamos que é o aleatório combinado com alguns constrangimentos. Quando vejo uma imagem que se sobrepõe a outra, surge um pensamento - é como uma máquina de criar pensamentos..Podemos continuar e depois voltar à sala anterior, mas não vamos encontrar a mesma sobreposição de imagens... Sim, vamos ter outra experiência que, em boa verdade, não é totalmente diferente - serão as mesmas imagens, mas por outra ordem. Eu próprio, mesmo tendo trabalhado quatro anos no filme, estou sempre a ser surpreendido com as relações entre as imagens. No limite, o filme funciona como um interface entre o mundo e nós..Será que a dimensão dos ecrãs, grandes ou pequenos, influencia toda essa experiência? Posso responder lembrando a minha experiência, como entrei no cinema. Claro que gostava muito de ver filmes em sala, mas um dia vi O Eclipse (1962), de Michelangelo Antonioni, em minha casa - tinha então 21 anos - num pequeno televisor colocado no chão. As coisas não estavam a correr muito bem com a minha companheira... Começo a ver O Eclipse e sinto um tal choque, dizendo para mim próprio: se se pode exprimir isto no cinema, então estamos perante qualquer coisa verdadeiramente incrível - era algo que não era possível exprimir por palavras..Parece-lhe que esta exposição pode funcionar como uma espécie de introdução à obra de Godard? Sim, no sentido em que a exposição pode ter o efeito de libertar o visitante/espectador. Como se disséssemos: "O que está a ver é para si, tem o direito de pensar o que quiser, de deixar nascer em si um pensamento"..Como é que um jovem espectador formado pelos filmes da Marvel poderá reagir? É preciso que ele tenha a noção de que não vem ver um filme da Marvel e, num certo sentido, possa esquecer tudo aquilo que aprendeu desde os sete ou oito anos. Não se trata de compreender [comprendre], mas de receber [prendre]..Há uma diferença? Sem dúvida, não há nada a compreender nos filmes de Jean-Luc. É como ter uns binóculos: cada filme é um posto de observação do mundo, e esta exposição é um observatório do mundo - do mundo da sociedade, dos humanos, dos sentimentos. Por isso não faz sentido vir aqui à espera de encontrar uma história. Porquê? Porque não há uma história, há milhões de histórias..dnot@dn.pt