Uma entrevistadora que faz com que os candidatos a um emprego digam tudo o que lhes vai na cabeça, sem filtro, um veterinário que consegue ouvir os pensamentos dos animais, uma dentista que produz instantaneamente bandas sonoras a partir do estado de espírito dos pacientes (se alguém estiver apavorado, ouvem-se notas de suspense, etc.), um homem capaz de transformar qualquer coisa num documento PDF, outro com dotes específicos para evacuar objetos em 3D, ou outro ainda com a particularidade de atravessar estruturas sólidas, apenas na condição de não ter qualquer roupa sobre o corpo - chato é quando, ao tentar atravessar uma parede, descobre que essa barreira de betão é mais grossa do que parecia e fica preso, com as nádegas expostas do lado da rua....Estes são apenas alguns dos superpoderes aleatórios, uns mais hilariantes do que outros, contemplados pelo argumento originalíssimo de Extraordinária, a série britânica lançada pelo Disney+ que dá a este início de ano um bom augúrio. Digamos que depois do peso-pesado The Last of Us, da HBO Max, este peso-pluma em tom de comédia não podia ser um melhor antídoto para a depressão geral do tempo presente..A protagonista da série é, de resto, uma jovem em crise. Tudo se passa num mundo onde quase todos ganham um superpoder ao completar 18 anos. Jen (brilhante Máiréad Tyers), com 25, surge aqui como uma das raras exceções à regra num panorama em que o normal é o extraordinário. E esta ausência de qualquer "habilidade especial" começa a pesar-lhe à medida que imagina o impacto positivo que o seu inexistente superpoder, qualquer que fosse, poderia ter na vida pouco fenomenal que leva, com um emprego sem futuro numa loja de disfarces carnavalescos e todo um programa frustrado de conquistas amorosas, já para não falar da família; quando a sua irmã mais nova faz 18 anos e adquire o poder da "superforça", ela já não aguenta tanta humilhação..Série de estreia da argumentista e comediante Emma Moran (aposta dos mesmos produtores de Killing Eve), o que se testemunha ao longo dos oito episódios desta primeira temporada não é obra de principiante. É, sim, uma prova de inteligência e timing humorístico que mete num chinelo o emaranhado de produções do universo Marvel. Se bem que a questão dos super-heróis nem sequer é aquilo que propriamente a define: ser super-herói em Extraordinária é a coisa mais corriqueira e mundana. Como realça Moran numa entrevista recente ao jornal britânico The Guardian: "Isto vem da minha própria experiência de estar um pouco sem direção", aquele sentimento de que "toda a gente tem tudo sob controlo menos eu"". Os super-heróis peculiares só vieram reforçar a ilustração desse sentimento. Portanto, a base dramática é muito mais universal do que parece: a juventude encalhada que vê os outros a casar e a evoluir nas carreiras..Mas ainda não falámos dos adoráveis amigos de Jen, com quem a protagonista partilha um apartamento na zona leste de Londres. A primeira a destacar é Carrie (Sofia Oxenham), cúmplice de longa data que trabalha num escritório de advogados, com o superpoder de convocar os mortos e dar-lhes voz, por exemplo, em situações de disputa de heranças (por vezes, Jen também aproveita esse poder da amiga para falar com o pai que já morreu); depois temos o namorado de Carrie, Kash (Bilal Hasna), um inútil empenhado na formação de um grupo de justiceiros, cujo superpoder é voltar uns minutos atrás no tempo, quando algo não corre bem, embora não evolua dentro da sua bolha infantil; e finalmente, o quarto elemento da série começa por ter a forma de um gato vadio, bichano que Jen acolhe à porta de casa, revelando-se, ao fim de pouco tempo, um homem (Luke Rollason) com amnésia e hábitos felinos relacionados com latinhas de comida e sítios esquisitos para dormir, como a banheira... A história do homem-gato é um capítulo delicioso..Curiosamente, apesar de todas estas personagens terem um superpoder, não há uma única que não sinta a miserabilidade da existência tal como Jen a sente (e não são os únicos em toda a série). A diferença é que a heroína está determinada a fazer pela vida, isto é, o que for preciso para conseguir pagar o tratamento numa certa clínica chique que promete resolver os casos de quem não obteve o seu superpoder na altura própria. Uma missão autoimposta que terá, pois claro, a ajuda dos amigos, mas com percalços que acabam por expor o lado menos agradável, ou psicologicamente mais complexo, da protagonista. Nada de grave. Apenas breves apontamentos dramáticos que comprovam a textura e qualidade da escrita de Moran, capaz de dar uma ferroada no coração e logo a seguir provocar uma super-gargalhada. Parece material levezinho, mas agarra pela imensa simpatia, com personagens que criam uma sensação familiar, perdidas por atalhos quotidianos tão divertidos quanto construtivos (por mais que não pareça no momento)..Não temos dúvidas de que Extraordinary será uma das mais felizes descobertas deste ano. Uma sitcom verdadeiramente criativa, arejada, perspicaz nos diálogos, hábil no humor, não sujeita à "higiene" temática dos tempos e muito aconchegante no formato de episódios de meia hora. Esta vívida expressão de talento deve-se também à boa energia dos atores, com toda uma dinâmica que estabelece a essência sólida para mais temporadas. A liderar o elenco, Máiréad Tyers, irlandesa que antes só tinha tido um pequeno papel em Belfast, de Kenneth Branagh, mostra-se bastante "especial" na pele desta jovem, supostamente, sem nada de especial. É um caso de genica pura, atitude de corpo inteiro, que ilumina o conflito interno de ser jovem hoje..dnot@dn.pt