Exposição de Filipa César liga tecelagem tradicional à linguagem da computação

Lisboa, 30 mai 2019 (Lusa) -- Uma exposição sobre o projeto de investigação da artista Filipa César que traça uma relação entre tecelagem tradicional africana e a linguagem da computação abre ao público na sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
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"Filipa César. Crioulo Quântico" é o título desta mostra com curadoria de Leonor Nazaré que ficará instalada até 02 de setembro no Espaço Projeto -- Coleção Moderna do Museu Gulbenkian, e foi hoje apresentada aos jornalistas numa visita guiada com a presença da artista.

A exposição representa um dos três momentos de um projeto internacional da artista, que envolve, além do Museu Calouste Gulbenkian, a Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, onde uma parte foi apresentada no início do ano, e a Tabakalera, em San Sebastian, onde o terceiro momento será exibido, em novembro.

Em Lisboa, a artista apresenta agora uma instalação e um filme de ensaio, que resultou de um processo de pesquisa coletivo, e que introduz vários formatos de imagem em movimento.

Na sala, um ecrã gigante exibe o filme, e numa estrutura em madeira são expostos alguns tecidos, resultado daquela técnica tradicional na Guiné-Bissau, nos quais tem investigado códigos de comunicação com paralelismo com o sistema usado na computação.

"A cultura da tecelagem é o resultado de um violento encontro entre os portugueses e os africanos", comentou a artista, acrescentando que "resulta de trocas comerciais e da plantação do algodão", naquela região, marcada pela história colonial portuguesa.

Na estrutura em madeira, com panos e objetos da cultura guineense, o grande ecrã dá a ver padrões digitais e gráficos, mãos que se movem, grandes planos de tramas, teares e tecelagens.

Neste trabalho de Filipa César, que dura há cerca de uma década, são abordados temas cívicos, políticos e de caráter ativista.

"A tecelagem pano de pente está mais próxima da computação do que a escrita", disse a artista, salientando que esta técnica "foi usada como forma de comunicação codificada que ainda hoje persiste".

A abordagem da artista portuguesa nascida no Porto, em 1975, incide sobre dinâmicas de crioulização, no seu contexto histórico e biológico, entre as quais se encontra a dimensão subversiva de códigos linguísticos e noções de tecedura.

No primeiro momento de apresentação deste projeto, em Berlim, Filipa César organizou uma ação com leituras e performances sobrepostas à passagem de um filme, evocando temas como a passagem de furacões no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, à violência cultural da zona franca que ali está a ser criada hoje, passando pelos movimentos coloniais dos séculos XV e XVI e os entrepostos de escravos.

Filipa César tem apresentado o seu trabalho em Portugal e no estrangeiro em festivais e certames de cinema e arte contemporânea, tais como a Berlinale, Doc's Kingdom, Flaherty Seminar, Manifesta 8, Jeu de Paume, Tensta konsthall, Harvard Art Museums e Haus der Kulturen der Welt.

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