Flutuar no espaço, inundado por focos de luz intensa, enquanto se observa o próprio corpo deitado numa cama é o relato mais comum de experiência quase-morte. Mas, segundo um estudo apresentado esta semana nos Estados Unidos, a explicação para este fenómeno não tem nada de espiritual e reside em factores biológicos. É a primeira vez que a ciência avança com uma tese para esta ocorrência..Neurologistas da Universi-dade de Kentucky, em Lexington, concluíram que, quando certas pessoas vivem uma situação muito próxima da morte, há uma parte do cérebro que é activada, à semelhança do que acontece quando se sonha. Em indivíduos com determinadas características, as fronteiras entre o estado de sonho e o de consciência são pouco claras. O que explica a sensação de estar fora do corpo, numa paz profunda e num estado de alerta..Nesta investigação, publicada na revista Neurology, foram comparadas 55 pessoas que tiveram uma experiência quase- -morte com outras tantas que nunca viveram essa situação. De acordo com as conclusões apresentadas, em 60% dos primeiros indivíduos analisados era frequente terem um sono REM quando acordados, o que só acontecia em 24% dos restantes. REM é a sigla para a expressão inglesa rapid eye movement (movimento rápido do olho) e é o estádio profundo do sono onde ocorrem os sonhos..Para quem entra em REM quando não está a dormir, a sensação é muito parecida com a experiência quase-morte. Acordam, estão conscientes mas não se conseguem mexer, sentem uma paralisia dos músculos das pernas, uma respiração mais acelerada e têm alucinações visuais e auditivas. .O neurologista Kevin Nelson, coordenador do estudo, aponta este facto como a explicação para vivências que muito consideram ser espirituais. Há "um surgimento do estado de sono REM no momento em que as pessoas se aproximam da morte e esta é a primeira hipótese de uma base biológica para estes fenómenos". O que é explicado por "uma activação de certas zonas do cérebro que também são activadas durante o estado de sonho", afirmou o investigador. .Ao contrário do que acontece para as restantes pessoas, nestes indivíduos "o cérebro tende a juntar os dois estádios - acordado e a dormir -, em vez de passar directamente de um para o outro". Contudo, o cientista não descarta que haja também uma dimensão espiritual envolvida. "Consideramos que esta investigação é neutra em relação à dimensão espiritual. Nós, neurologistas, estamos interessados em perceber o 'como' dessas experiências, não o porquê". Até porque, acrescenta, muitas das pessoas que passaram por experiências dizem que esse facto mudou totalmente as suas vidas, dando-lhes outro significado..Foi precisamente o relato de uma destas pessoas que levou o americano a estudar o tema. "Fiquei fascinado com a intensidade da descrição que me fizeram." Uma experiência que fica definida nas conclusões do estudo como "um período durante um episódio de perigo - como um acidente de carro ou um ataque de coração - no qual uma pessoa vive uma série de sensações, incluindo um estado de alerta acentuado em que sai do próprio corpo".