Exames de condução em exclusivo nas privadas

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Os exames de condução vão passar a ser feitos por entidades privadas. Ou seja, vão sair da alçada da Direcção-Geral de Viação, que passa apenas a ter um papel fiscalizador. O secretário de Estado da Administração Interna defendeu ontem esta ideia, justificando que "o Estado não pode examinar e fiscalizar ao mesmo tempo, nem deve". No entanto, Ascenso Simões disse ao DN que tem de se regulamentar "quem o faz, como faz e onde faz", até ao final do ano.

Em mais um dia de presidência temática sobre a sinistralidade rodoviária, o secretário de Estado disse, em Coimbra, que há que ter em atenção alguns problemas e colocar as soluções rapidamente no terreno. "Temos o problema ao nível das escolas, a melhoria do ensino da condução, o problema da certificação dos formandos ao nível do exame de condução. Ou seja, há que retirar ao Estado aquilo que deve ser a função de exame e levar o Estado a fazer aquilo que é a sua função fiscalizar. O Estado não deve fazer exames, o Estado deve antes fiscalizar as entidades que fazem esses exames", sublinhou.

O presidente do Automóvel Clube Português (ACP) foi mais longe e garantiu que, apesar de não ter provas, sabe que "há muita corrupção nos exames de condução e no ensino". E alertou a DGV e o Governo "Senão vejam uma determinada escola em Chelas, que é a que tem maior taxa de aprovação. Certamente não será pela beleza daquela localidade."

Carlos Barbosa explicou que, hoje em dia, "o ensino da condução é feito de forma leviana e ultrapassada e não se adapta à realidade". Os exames não são cuidadosos, "os alunos vão para a escola não para aprenderem a conduzir mas para tirarem a carta". O responsável explicou que, para começar desde já a reduzir a sinistralidade rodoviária, basta transformar o ensino da condução. Por isso, Carlos Barbosa pede que o ensino teórico seja separado do exame prático, e que este seja entregue a entidades privadas.

No entanto, mudar as coisas não será fácil, até porque "existem os lobbies das escolas de condução", como sublinhou António Nunes, director-geral de Viação. Que adiantou que a taxa de reprovação nos exames teóricos é de cerca de 60%, mas admitiu que há problemas na parte prática, decorrentes até de "fortes pressões sobre o ensino da condução". No entanto, Ascenso Simões garantiu não estar disposto a ceder a estes lobbies, e sublinha que "nunca os recebi no meu gabinete".

O dia de ontem foi totalmente dedicado à formação e educação dos condutores, e logo pela manhã Jorge Sampaio assistiu a uma aula de "código infantil" dada aos alunos da escola do 1.º ciclo de Abadias. Bastante interventivo, como aliás se tem mostrado desde o início da iniciativa, o presidente da República assumiu a moderação do debate. Afinal, "não estou a concorrer a eleições mas ainda tenho um contributo a dar". E vivendo num País que passa os dias a dizer que não há dinheiro para nada, Jorge Sampaio responde "Não fazer as coisas porque não há dinheiro é atitude de país rico. E nós não somos um país rico."

Na Figueira da Foz, defendeu ainda que a educação rodoviária e cívica das crianças depende em muito da articulação das diversas entidades, como as autarquias, as forças policiais e até empresas privadas. Embora reconheça que "neste momento não seja possível muito do ponto de vista financeiro, não vale a pena ter ilusões a esse respeito. Mas vale a pena tirar rendimento do que existe e fazer com que os professores e os pais tenham uma preocupação grande com o tema da educação cívica. No entanto, sabemos que tudo isto demora muito tempo".

E Jorge Sampaio fez questão de reforçar a ideia "É nesta idade que se começa a eliminar uma das principais causas da elevada sinistralidade: a falta de consideração pelos outros e a falta de civismo."

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