Um "sequestro" no ministério, "ameaças de agressão física" por parte do ministro, coação pelos serviços de informações. Frederico Pinheiro contou esta quarta-feira, na comissão parlamentar de inquérito à TAP, a sua versão dos acontecimentos dos últimos meses no ministério das Infraestruturas. Um depoimento que contraria em muito o relato feito pelo ministro das Infraestruturas. E que pôs praticamente toda a oposição a pedir novamente a demissão de João Galamba.."Enquanto cidadão anónimo sem poder de decisão, fui ameaçado pelo SIS, fui injuriado e difamado pelo primeiro-ministro e pelo ministro das Infraestruturas", afirmou Frederico Pinheiro, que acusou a "poderosa máquina do Governo" de ter tentado criar uma "narrativa falsa sobre os factos". O ex-adjunto das Infraestruturas rejeita ter roubado um computador - que diz ter levado legitimamente do ministério - e recusa também ter agredido outros membros do gabinete: "Eu é que fui agredido"..Ao longo de uma audição que se prolongou por cinco horas, Frederico Pinheiro voltou a imputar a João Galamba a intenção de ocultar à comissão parlamentar de inquérito (CPI) a existência de notas de duas reuniões realizadas em janeiro - a primeira entre Galamba e a então presidente executiva da TAP (a 16 de janeiro); a segunda, uma reunião em videoconferência que juntou Christine Ourmiéres-Widener, membros do grupo parlamentar do PS e o próprio Frederico Pinheiro, e que serviu para preparar a audição parlamentar da líder da TAP, no dia seguinte. O ex-adjunto diz que as notas que tirou desse encontro deixam claro que "tinham sido enunciadas algumas das perguntas" que os deputados do PS fariam a Ourmiéres-Widener um dia depois, e que "tinham sido definidas as respostas" da responsável da TAP..São estas notas que vão levar Galamba e Frederico Pinheiro a acusarem-se mutuamente de tentar esconder informação à CPI. De acordo com o relato do ex-adjunto, a indicação de que as notas das reuniões de janeiro não deviam ser entregues à CPI "foi dada pela chefe de gabinete, na presença do ministro", com o argumento de que se tratava de apontamentos "informais". Frederico Pinheiro também afirmou que a mesma chefe de gabinete ordenou uma intervenção ao seu telemóvel, para tentar recuperar mensagens antigas sobre as referidas reuniões, uma ação da qual resultaria um "apagão" de todo o arquivo do whatsapp. Eugénia Correia - que estava a ser ouvida na CPI à hora de fecho desta edição - diria depois que este apagão resultou da ação do próprio Frederico Pinheiro, sustentando também que este nunca deu conhecimento, até ao dia 24 de abril, que tinha notas da reunião..Para o antigo adjunto "havia já nessa altura [no início de abril] a intenção de omitir informação, numa tentativa de desresponsabilização política". Prova disso, argumenta, é que só a 24 de abril lhe é comunicado que o gabinete ia responder à CPI que não havia notas sobre a reunião. Frederico Pinheiro terá afirmado que, a ser chamado à CPI, teria de contrariar aquela versão e acaba por ficar combinado que deverá enviar as notas até ao "final do dia 25 de abril". Pelo caminho há várias tentativas de contacto da chefe de gabinete e do próprio João Galamba que, "exaltado e a gritar", pede a Frederico Pinheiro que lhe envie as notas. O antigo adjunto garante que as enviou por volta das dez da noite, "dentro do prazo combinado"..Um dia depois, com João Galamba acabado de aterrar de Singapura, o ministro das Infraestruturas liga a Frederico Pinheiro, comunicando-lhe que está despedido. O próprio diz que nessa conversa não foi dita a palavra exoneração nem lhe foi comunicado nenhum impedimento de entrar nas instalações. Mas foram feitas ameaças: o ex-adjunto alega que o ministro ameaçou dar-lhe dois murros..Despedido verbalmente, Frederico Pinheiro foi então ao ministério e, também aqui, o relato das duas partes é totalmente divergente. "Não agredi ninguém, apenas me libertei, em legítima defesa, de quatro pessoas que me empurraram e tentaram tirar-me o computador". Um equipamento que o ex-adjunto diz não ter roubado, falando numa "campanha injuriosa, mentirosa e difamatória", "movida por altos responsáveis do Estado, com os meios do Estado". "Eu é que fui agredido", sustentou Frederico Pinheiro, que disse ter sido "sequestrado" nas instalações do ministério, de onde só saiu acompanhado por agentes da PSP. Um relato contrariado depois por Eugénia Correia, que disse ter sido agredida a murro por Frederico Pinheiro naquela noite..Uma das questões mais sensíveis de tudo o que se passou no ministério das Infraestruturas prende-se com a posterior intervenção do SIS. Segundo Frederico Pinheiro, a 26 de abril, já depois das 11 da noite, recebe uma chamada de um "homem que se identifica como agente do SIS" - os serviços de informações. "A minha reação é de choque e incredulidade", afirma, acrescentando que duvidou que se tratasse efetivamente de um agente do SIS. Por isso, propôs ao interlocutor "ligar para a sede do SIS e dar uma palavra código. "Às 23h39 sou contactado com a palavra código", contou Frederico Pinheiro, que diz ter dado conta ao agente das suas dúvidas, ao que o agente do SIS terá retorquido que estava "a ser muito pressionado de cima". E terá acrescentado: "O melhor é resolvermos isto a bem porque depois tudo se pode complicar". Uma "ameaça" que é "repetida mais duas vezes", segundo Frederico Pinheiro..O antigo adjunto terá então dito ao agente do SIS que lhe entregaria o computador, mas se faria acompanhar de "uma familiar, que é procuradora geral adjunta", o que o agente recusou, argumentando que que seria "melhor resolver entre os dois". O visado pede para refletir cinco minutos e acaba a entregar-lhe o computador na rua: "Saio de casa sozinho, encontro o agente ao fundo da rua e entrego-lhe o computador pela meia-noite". Na manhã do dia seguinte foi a vez de a PJ lhe bater à porta: "Recordo-me da surpresa dos agentes [da PJ quando disse que entreguei o computador ao SIS". Um relato que vem adensar as dúvidas sobre a ação do SIS neste caso, isto já depois de o Conselho de Fiscalização das secretas ter garantido a legalidade da atuação dos serviços de informações. Já sobre o contacto que foi feito com o SIS, outra questão sem resposta clara até agora, Eugénia Correia revelou na CPI que foi ela própria quem ligou para o SIRP (Sistema de Informações da República Portuguesa), recebendo depois uma chamada do SIS. .Se o ministro tem justificado o contacto com o SIS e a PJ com o facto de o computador de Frederico Pinheiro ter informação classificada, o ex-adjunto revelou que nunca lhe foi perguntado se tinha essa informação noutros dispositivos, nem nunca lhe foi pedido o telemóvel de trabalho, que disse ter tentado entregar, sem qualquer resposta - o telemóvel acabou por ficar na comissão de inquérito, para ser entregue às autoridades, para que seja tentada a recuperação das mensagens apagadas..Do PSD ao BE, a oposição voltou a defender que João Galamba não tem condições para se manter no Governo - uma questão particularmente sensível, depois de António Costa ter recusado a demissão do ministro, contra a vontade do Presidente da República. Hoje será a vez de o próprio ministro ser ouvido na comissão de inquérito à TAP..Com Rui Miguel Godinho.susete.francisco@dn.pt