Evo Morales leva folha de coca para reunião antidroga

Conferência internacional sobre luta contra estupefacientes. A saúde deve voltar ao centro  da luta contra o nacotráfico, diz responsável da ONU<br />
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Evo Morales levou ontem uma folha de coca à conferência internacional das Nações Unidas sobre droga, que está a decorrer em Viena. Mascou-a em frente aos representantes dos países que fazem parte da comissão de estupefacientes da ONU, exigindo que esta folha seja retirada da lista de substâncias ilícitas. E ainda desafiou o director-geral do gabinete da ONU contra a droga e crime, Antonio Maria Costa, a prendê-lo por consumo: "Isto não é droga, caso contrário teriam de mandar deter-me."

A folha de coca está na lista de substâncias ilícitas desde 1961, mas o Presidente da Bolívia diz que "não é cocaína e não é nociva para a saúde, não causa dependência, nem perturbações psíquicas". Lembrando que no seu país a folha de coca chega a ser considerada uma planta sagrada, com poderes medicinais, deu o seu exemplo pessoal. "Eu consumi folhas de coca durante dez anos e se realmente ela tivesse os efeitos aqui descritos eu jamais teria chegado a presidente da República", disse, citado pelas agências internacionais.

Morales tornou-se o primeiro chefe do Estado indígena eleito na Bolívia, em 2005, mantendo ao mesmo tempo o cargo de dirigente sindical de cultivadores de coca. "Nós defendemos a folha de coca, mas combatemos a cocaína", esclareceu Morales, em Viena, na conferência destinada a analisar dez anos de estratégia de combate à droga e definir medidas para a próxima década. Os Estados Unidos são totalmente contra esta cultura em expansão nos países da América Latina. Morales, como forma de represália contra esta posição, ordenou a expulsão da agência americana anti-droga do país. A Bolívia é o terceiro produtor mundial de coca. Estima-se que nos países andinos dez milhões de pessoas mas quem folha de coca, o equivalente à população de um país como Portugal.

Antes da conferência internacional, que hoje termina com uma declaração comum, o director daquele gabinete admitiu um aumento do crime organizado ligado ao tráfico, mas garantiu que o número de consumidores de droga, 5% da população mundial, estabilizou nos últimos anos. Antonio Maria Costa, que ontem falou à imprensa à margem da conferência da ONU, adiantou que a aposta é a de "repor a saúde no coração da luta contra o tráfico de droga".

A estratégia actual, disse, citado pela AFP, "conduziu à criação de um mercado criminoso à volta do tráfico de droga que tem um valor de 300 mil milhões de dólares por ano. A redução dos riscos [por exemplo através de tratamentos de substituição] deve ser uma parte da solução para reduzir o consumo de drogas. Mas não deve substituir as outras medidas".

Alguns países europeus e latino-americanos querem enfatizar a educação pública e o tratamento de toxicodependentes, mais do que criminalizar dependentes e agricultores. Mas outros países, refere a BBC, preferem a abordagem tradicional de combate à droga. É o caso dos Estados Unidos e da Rússia.

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