A imigração para a Europa não é, no contexto atual e das últimas décadas, um fenómeno neutro. A Europa, espaço natural de emigrantes ao longo de séculos, desde logo para as Américas e para África, em virtude da sua história colonial e das suas próprias crises ao longo dos séculos XIX e XX (e Portugal é aí um bom exemplo), sente-se hoje ameaçada pela imigração de outros povos, culturas, credos, na sua identidade e na sua segurança. O medo do outro..A generalidade dos regimes e das políticas europeias tem tentado lidar com esse facto com a decência devida - e isso deve também ser dito. Mas, perante a pressão do terrorismo de base invocadamente islâmica do pós-11 de Setembro de 2001, perante a pressão progressiva da imigração dita ilegal e as dificuldades acrescidas, ou mesmo a guerra efetiva, em tantas partes do mundo, e desde logo na bacia do Mediterrâneo, nos territórios da África subsariana e no Oriente Próximo, desde o início do milénio, torna-se difícil à gestão dos países europeus corresponder adequadamente neste domínio com um misto de decência, coerência e compreensibilidade públicas.."Europa-fortaleza"? Mas que necessita objetivamente de mão-de-obra, mais fácil de obter além-fronteiras? "Europa-paraíso na Terra", onde uma retribuição financeira pelo trabalho existe, existe proteção social, uma lógica institucional de serviço público e uma corrupção controlada, na perspetiva de um recém-chegado, comparativamente com o seu espaço de origem?.Em relação à imigração para a Europa, o espaço ideológico da esquerda europeia tem desde logo uma evidente dificuldade em lidar com esta realidade. Do ponto de vista ideológico, parece natural uma política de acolhimento quer da imigração económica quer daquela motivada por razões políticas e humanitárias. Como não corresponder à injustiça e à desigualdade, perante pontos de partida tão distintos e uma mesma humanidade? Mas, do ponto de vista da sensibilidade cívica e eleitoral na Europa, há um cansaço, do qual a esquerda é vítima e ao qual não sabe responder, e que funciona como alimento para os partidos e movimentos que apresentam a imigração maciça para a Europa como exemplo de como supostas respostas solidárias e universais não funcionam e são até injustas, usando exemplos concretos de problemas concretos, seguramente sentidos e reais, nas suas distintas unicidades, mas cuja dimensão plena nunca é demonstrada nem a sua conexão causal com essa imigração, no sentido de fator de exclusão imediato e necessário de outros cidadãos. A Europa Central, o Reino Unido, a Escandinávia, têm uma elevada percentagem da sua população provinda de outras partes do mundo e que é sentida efetivamente como estrangeira, nas diversas aceções da palavra. O Leste Europeu não a tem. A "tolerância à diferença", uma expressão com a sua dose de absurdo intrínseco, não é culturalmente a mesma em todos os espaços e territórios, em virtude da sua história e das suas experiências..Esta é uma dificuldade real e que não se resolverá tão cedo, porque a Europa é um poliedro com diversas realidades eventuais: existe uma para quem nela vê o sonho de alguma justiça e conforto efetivamente impossíveis de atingir no espaço onde vive; outra para quem se sente devidamente confortável no seu espaço europeu; outra ainda para quem se sente injustiçado pela sua terra nativa europeia e pelas suas promessas tomadas até dado momento como garantidas....Sabemos, contudo, que se a dimensão de "ameaça do outro" e de "perceção de injustiça" não for devidamente acautelada nos projetos políticos democráticos europeus, outros ocuparão o seu lugar. E a Europa nada ganhará com isso, porque quer o medo quer a injustiça são vírus muito contagiosos, como este continente bem sabe..Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa