O presidente norte-americano, Joe Biden, congratulou-se ontem com o regresso a casa de "cinco norte-americanos inocentes" que estavam presos no Irão, numa troca de prisioneiros com Teerão que recebeu críticas da oposição republicana por envolver também o desbloquear de seis mil milhões de dólares de fundos retidos ao abrigo das sanções. Num comunicado, divulgado pouco depois de os norte-americanos terem aterrado no Qatar, Biden não faz referência ao acordo sobre o nuclear, rasgado desde 2018, mas os analistas acreditam que esta troca de prisioneiros pode ajudar ao diálogo.."A minha sentida gratidão vai para o presidente Biden e a sua administração, que tiveram que tomar algumas decisões incrivelmente difíceis para nos resgatar", disse um dos libertados, Siamak Namazi, que passou o "tormento" de 2898 dias na prisão. "Obrigado por pôr a vida dos cidadãos americanos acima da política. Obrigado por acabar este pesadelo. Obrigado por trazer-nos para casa", acrescentou num comunicado..Além da libertação de cinco iranianos que estavam detidos nas prisões norte-americanas, acusados de serem agentes não identificados ou de violar as sanções internacionais, o acordo envolveu seis mil milhões de dólares. O dinheiro era iraniano, proveniente da venda de petróleo à Coreia do Sul, mas estava retido há anos neste país devido às sanções internacionais. O montante foi convertido em euros e depositado em contas no Qatar, país que garantirá que o dinheiro será usado em alimentos, medicamentos ou outro tipo de ajuda humanitária - que não estão atingidas pelas sanções..Os republicanos acusam Biden de financiar o terrorismo iraniano com este acordo, que se concretizou ontem mas levou meses a negociar e cujos contornos foram revelados na semana passada. E incentivar a tomada de novos "reféns". O presidente defendeu-o, lembrando que "reunir os americanos detidos injustamente com os seus entes queridos tem sido uma prioridade [sua] desde o primeiro dia" e lembrando que as viagens para o Irão não são recomendadas. Contudo, fontes admitiram ao New York Times que o dinheiro que era usado atualmente em alimentos, medicamentos, etc. pode ser desviado para outros fins, com a injeção deste capital..Ao mesmo tempo que indultava os cinco iranianos presos nos EUA e se congratulava com o regresso dos cinco norte-americanos, Biden lembrava o ex-agente do FBI Bob Levinson - que desapareceu de forma misteriosa numa viagem ao Irão em 2007 e se presume que esteja morto. O presidente exigiu respostas ao regime de Teerão sobre o que aconteceu e impôs sanções contra o então chefe de Estado iraniano, Mahmud Ahmadinejad..Apesar disso, os analistas acreditam que a troca de prisioneiros pode ser a abertura de uma porta no diálogo sobre o nuclear iraniano - apesar de continuar a tensão entre os dois países. As Nações Unidas esperam que esta troca possa levar a "uma maior cooperação". Mas Washington prefere baixar as expectativas. "Não estamos envolvidos nisso, mas vamos ver se no futuro há oportunidades", disse o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, lembrando que a negociação para a libertação dos prisioneiros sempre foi distinta da do acordo nuclear. Este foi assinado em 2015, na presidência de Barack Obama, mas rasgado na de Donald Trump..A expectativa é que Teerão possa aceitar manter o urânio enriquecido nos 60% (abaixo do necessário para usar numa bomba atómica) em troca de mais alívio das sanções. Isto apesar de ter anunciado no fim de semana a retirada dos vistos a um terço dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica no país, num golpe para a supervisão de qualquer eventual acordo..A troca de prisioneiros também foi criticada por organizações dos direitos humanos iranianas, por causa da proximidade ao primeiro aniversário da morte da jovem Mahsa Amini, de 22 anos, quando estava sob custódia policial por não usar o hijab. A sua morte desencadeou semanas de protestos e o acordo agora é visto como se os EUA ignorassem os direitos dos iranianos..NORTE-AMERICANOS A troca de prisioneiros envolve cinco pessoas de cada lado. Todos os que estavam no Irão tinham dupla nacionalidade. O nome de dois não foi revelado, a pedido das famílias. Eis o que se sabe sobre os outros..Siamak Namazi: O empresário de 52 anos foi detido em 2015, sendo o norte-americano que estava há mais tempo numa prisão iraniana. O seu pai, Baquer, foi preso em 2016 quando chegou ao Irão para visitar o filho. Ambos foram condenados a 10 anos de prisão por colaborar com um governo estrangeiro. Baquer foi libertado por motivos de saúde em 2022, deixando o Irão, após anos em prisão domiciliária..Emad Sharghi: O empresário de 59 anos, que já tinha sido ilibado em 2018 de acusações de espionagem, foi condenado a 10 anos de prisão em 2020 pelo mesmo crime e detido quando terá tentado fugir do país em 2021..Morad Tahbaz: O ambientalista de 67 anos, que tem também nacionalidade britânica, foi detido em 2019 e condenado a 10 anos por "conluio contra a segurança nacional iraniana" e "contactos com o governo dos EUA"..IRANIANOS Sobre os presos nos EUA, três deles não planeiam voltar ao Irão - dois vão ficar nos EUA, onde estão há anos instalados, e um outro vai ter com a família a outro país. .Kaveh Afrasiabi: O cientista político, nascido em 1958 e residente nos EUA, foi preso em 2021 e acusado de ser um agente não registado do governo iraniano..Mehrdad Moein Ansari: O iraniano de 41 anos, residente dos Emirados Árabes Unidos e Alemanha, foi condenado há um ano por exportar material militar sensível para o Irão, violando as sanções ocidentais..Amin Hasanzadeh: O engenheiro de 46 anos, residente nos EUA, foi acusado há quatro anos de roubar dados confidenciais e enviá-los ao irmão, no Irão..Reza Sarhangpour Kafrani: Tem 46 anos e dupla nacionalidade iraniana e canadiana. Foi acusado de exportar ilegalmente material de laboratório para o Irão..Kambiz Attar Kashan: Tem 44 anos, nacionalidade iraniana e norte-americana, e foi condenado por conspirar para exportar ilegalmente tecnologia e outros bens para o Irão..susana.f.salvador@dn.pt