A caminho das eleições de maior proximidade na democracia portuguesa, as autárquicas são, na verdade, um espelho que reflete de forma crua todo um país..As desigualdades entre litoral e interior, as diferenças entre grandes, médias e pequenas cidades, a diversidade de problemas que afetam de forma diferente as populações rurais e as urbanas, a especificidade de cada território, a quantidade de candidatos à câmaras, assembleias municipais e de freguesia fazem deste ato eleitoral um dos momentos mais exaltantes da democracia..Os debates que se sucedem nos vários meios de comunicação dão-nos, na verdade, uma visão pormenorizada sobre cada distrito, cada concelho, quase sobre cada terra. A terra de cada um. Nas sedes nacionais dos partidos, nos diretórios e nos comentários, as autárquicas pouco mais são que uma forma de avaliar as lideranças, fazer contas para reforço ou mudança de líderes, altura para acerto de contas internas do aparelho e para posicionamentos futuros..Mas, para quem vota - talvez por isso sejam cada vez menos - as autárquicas importam. Só num país centralista e atrasado, refém da bolha politico-mediática, afastado da realidade dos cidadãos e da sua vida quotidiana, estas eleições sirvam apenas para conquistar "poder" e tirar conclusões "nacionais". Nos debates a que já assisti, e nos que tive oportunidade de moderar, a realidade é bem diferente. Porque apesar de haver problemas comuns a todo o país - como a falta de habitação, a mobilidade, a rede social e o emprego - cada concelho tem realidades próprias, intrínsecas, que não se resolvem (só) com leis da república ou decretos emanados a partir de gabinetes longe da poeira das ruas..O anunciado reforço do poder municipal é - deve ser - crucial para o desenvolvimento mais harmonioso, coeso e próximo de um país desigual, assimétrico e desequilibrado. Mas a esse reforço de poder tem de corresponder um reforço de verbas para poder colocar no terreno as ambições das populações. Para resolver os seus efetivos problemas, para dar respostas adequadas às questões do dia a dia dos cidadãos e, dessa forma, de "baixo para cima", sermos capazes de construir um país melhor. Um país que se preocupe de facto com cada freguesia, com cada concelho, com cada território. E que o municipalizado não seja apenas uma forma de "contar câmaras" para o equilíbrio no parlamento mas, antes, uma lição de proximidade e democracia "direta" que atenda aos que são eleitores mas, antes de mais, são cidadãos.. Jornalista