Em apenas 25 anos de vida, Henrique Pousão (1859-1884), além de outras telas, pintou um dos quadros mais singulares da Pintura Portuguesa: Esperando o Sucesso. Alguns podem ficar apenas intrigados com as pitorescas sandálias ciòcia, populares nos arredores de Roma em finais do século XIX; outros com o ar malicioso do rapaz que serve de modelo e poderia representar as ambições do próprio pintor enquanto jovem; ainda há quem se deixe encantar pelos pormenores do atelier, dos mosaicos do chão às molduras arrumadas, do pincel a sair da paleta ao tubo de tinta caído. .Mas nada se compara ao sarcasmo com que Pousão reflecte acerca da sua arte nesta Alegoria à Pintura. Não é apenas o miúdo atrevido e petulante a sentar-se no "sagrado" banco do pintor nem a tela em que ele teria sido retratado de barriga para baixo. Há ainda o desenho garatujado pelo garoto e, num pormenor que apenas se nota bem ao ver o quadro no Museu Soares dos Reis, no Porto, a caricatura do autor no topo do óleo, ao lado da tela principal. .Agora, ao ler o livro de Carlos Silveira sobre o pintor (editado pela QuidNovi e à venda nos quiosques de jornais), paramos num parágrafo: "Falta igualmente estudar (...) a pintura e os artistas que Pousão contactou em Roma, na Exposição Nacional de Roma de 1883 (...); ou as exposições anuais que o Círculo [Artístico de Roma] organizava na Piazza del Popolo". O que deve ser mais fácil que esclarecer a dúvida de José Teixeira (Henrique Pousão 1859-1884 - No Primeiro Centenário da Sua Morte, ed. Fund. Casa de Bragança, 1984): em Paris, terá visitado a VI Exposição dos Impressionistas e visto as telas de Degas e Gauguin? O melhor é continuarmos "esperando o sucesso".